Miracy do Nascimento Ferreira Real

Miracy do Nascimento Ferreira Real é uma das mais eficientes e queridas educadoras de Ponte Nova. Professora aposentada pela Secretaria de Estado da Educação, lecionou em diversas escolas públicas e particulares, desenvolvendo atividades em prol do nosso desenvolvimento cultural. Mineira, de Augusto de Lima, Miracy é casada com o empresário Fernando Real, com quem tem duas filhas . Licenciada em Português e inglês pela UFMG, de Belo Horizonte, e em Letras pelas Faculdade de Ciências Humanas do Vale do Piranga, foi funcionária da antiga Delegacia Regional de Ensino e da Secretaria Municipal de Educação e Cultura(Semec). Na Alepon, ocupa a cadeira número 19-Seção 1- Poesia. Seu patrono é o poeta Carlos Drumond de Andrade, cujo elogio mereceu calorosos aplausos pela excelência da exposição, num trabalho de mestra. Condensamos, a seguir, parte de seu depoimento, cuja integra será divulgada com a antologia que a Alepon está organizando.

O patrono Carlos Drumond de Andrade

"Eu poderia dizer que Drumond já é patrono de velhos tempos da minha meninice na escola, quando nem sabia o que era uma Academia e já sonhava com o mundo que seus poemas descortinavam, enquanto os declamava nos auditórios festivos do Grupo Escolar Senador Antônio Martins.

À medida que aflorava em mim o gosto de ler e escrever poesias, havia sempre um livro seu sobre o criado de meu quarto, ou sobre algum outro móvel da casa. Era difícil também conter a minha vontade constante de mostrar Drumond aos meus alunos, quando lecionava, na expectativa de que, como eu, eles encontrassem pontos de partida em suas palavras: elas descortinam temas, tais como indivíduo, terra natal, família, amigos, choque social, conhecimento amoroso, a própria poesia, visão da existência, lembranças infantis; enfim, uma gama de assuntos para alimentar a mais sôfrega ou sensível alma; despertar a mais céptica ou prática.

Lendo Drumond, entendi por que "amar se aprende amando", ou até sofrendo, "paixão, medida"; tentando sempre decifrar um "claro enigma", que seja entre "os dias lindos" ou em meio aos dias cruciais da II Guerra Mundial, quando desabrochou a "rosa do povo", representando as preocupações reinantes no país e no mundo. Aprendi que se pode florescer a "poesia errante", colocando nela "as impurezas do branco".

Drumond ensinou-me até a possibilidade de se elaborar o "auto retrato" sob o clarão da "boca de luar", embora sendo um prisioneiro de si mesmo, onde se conflituam um funcionário público, que se trasmuta, à noite em poeta: um "fazendeiro do arrependido confesso de não Ter aproveitado o convívio da natureza; toda uma personalidade fundida em ferro gusa, um confidente itabiritano", exalando orgulho de ser mineiro, revela-se tímido e modesto nos "contos aprendiz".

Em fim, eu o sinto divagar em sua "cadeira de balanço", a pronunciar nomes, que como ele próprio diz, "sem conhecê-los, é como tocá-los". Ou talvez , quem sabe, nesses momentos, estivesse o "poeta a escolher seu túmulo", num ''ultimo ato, com a convicção da "vida depois da vida":

Observem-no, nas entrelinhas de alguns poemas:

O Pagamento:
 
"Quando é que sai o pagamento?
O pagamento está difícil.
Difícil é o pagamento
Ou conceber a estranha folha".
 
Confidências de um itabiritano
 
"Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma
Fotografia na parede.
Mas como dói !"
 
A palavra Minas
 
"Minas não é palavra montanhosa.
É palavra abissal.
Minas é dentro e fundo."
 
O homem.
 
Para sua biografia, a vida pessoal que o impulsionou até a poesia, cabe um verso seu:
"-Êta vida besta, meu Deus ! "
 
Carlos Drumond de Andrade, nono filho de fazendeiros em declínio, nasceu em Itabira do Mato Dentro(MG), em 31/12/1902. Já no grupo escolar , suas tendências literárias começaram a aparecer.
 
Aos 14 anos, matriculou-se no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Após 6 meses, voltou a Itabira por motivos de saúde. Tendo que ficar algum tempo inativo, conseguiu seu primeiro emprego como caixeiro viajante de uma loja na cidade. Melhorando a saúde, e também a situação financeira da família, Drumond retorna aos estudos como interno no Colégio Anchieta, de Friburgo. Acostumado à convivência doméstica, teve de se submeter a rígida disciplina que o revoltava, até que dois anos mais tarde, em um desentendimento com um professor de português, foi expulso da escola por "insubordinação mental ".
 
Voltou então à Belo Horizonte onde prosseguiu os estudos. Nessa época, a literatura começava a absorvê-lo. Passou a colaborar em jornais e revistas com artigos de crítica, contos e poemas em prosa. Ainda estudante, aos 23 anos, casou com Maria Dolores Dutra, com muitas dúvidas: numa carta, Mário de Andrade discute as perplexidades de Drumond com a proximidade do casamento.
 
Teve um filho que morreu pouco depois de nascer - fato que o deixou deprimido por longo tempo, além de Maria Julieta, que se tornaria grande amiga e colaboradora.
 
Carlos Drumond de Andrade formou-se em Farmácia. Mas não se interessou pelo diploma nem se adaptou à vida de fazendeiro. Lecionou Geografia e Português no ginásio Sul-Americano, de Itabira, e voltou a BH, como jornalista, vindo a ser redator-chefe do Diário de Minas. Nessa ocasião, ouvindo sobre Drumond, porém sem conhecê-lo, Villa Lobos compõe uma seresta sobre o seu poema "Cantiga de Viúvo". Em 1928, publica na Revista Antropofagia, de São Paulo, o poema "No meio do Caminho", que se torna pedra de escândalo literário:
"No meio do caminho tinha uma pedra,
Tinha uma pedra no meio do caminho"...
 
E até o final de sua vida, dividiu seu tempo entre o trabalho como funcionário público e as atividades jornalísticas e literárias.
Sem muito barulho, retirou-se progressivamente da militância e do engajamento, por considerar a política inútil, e pela violência contra suas idéias e sua sensibilidade. Alegou "razões de consciência" para recusar o Prêmio Brasília de Literatura e, intransigentemente, recusou os convites para entrar para a Academia Brasileira de Letras.
Aposentou-se como chefe de seção do DPHAN, após 35 anos de serviço público, recebendo carta de louvor do ministro da Educação, Oliveira Brito.
 
Em 1972, seu 70º. Aniversário foi comemorado com suplementos literários nos maiores jornais do país, além de muitas premiações, troféus e exposições.
 
Em 1986, ficou hospitalizado 14 dias com insuficiência cardíaca. E não escondeu que sofria, que a morte se aproximava a galope e que já não fazia questão de viver
.
Em 1987 foi homenageado com o samba-enredo "O Reino das Palavras" pela escola de samba Estação Primeira da Mangueira. Seis meses depois morre o homem. Viverá o espírito.
 
Drumond foi crítico consciente, constante e perspicaz, de si mesmo e do mundo e não era lá de grandes conversas, de reuniões sociais. Porém, gostava de falar os seus gostos e hábitos simples:
 
"Não entendo nada de futebol, mas tenho simpatia pelo Vasco da Gama, no Rio, pelo Cruzeiro, em Belo Horizonte; e pelo Corinthians em São Paulo. Gosto de andar a pé, de comer chocolate, de folhear livros ilustrados, de cultivar meus amigos, de decifrar o jogo dos oito erros, de brincar com crianças pequenas de desenhar (mal), de ver filmes na televisão depois da meia-noite."
 
E agora José?
 
Miracy do Nascimento F. Real.
 

Para saber mais sobre Carlos Drumond de Andrade, dê um duplo "Click" nos endereços abaixo

http://www.carlosdrummond.com.br/
http://www.zeek.com.br/templates/url.cfm?url=www.geocities.com/athens/parthenon/4591
 

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