FUNDAÇÃO DE PONTE NOVA

Pe. João do Monte de Medeiros
Como era comum em certas ocasiões, vários membros de uma mesma família recebiam, em doação, sesmarias em uma mesma região.
Caio César Boschi acredita que esse procedimento era mais um ato de corrupção, em que um indivíduo, usando o nome de seus familiares, somava grandes extensões de terra que, muitas das vezes, permaneciam incultas.
Entretanto, para aquelas famílias que se instalavam nas sesmarias e nelas permaneciam nas lides da agricultura, a doação tinha, na realidade, outro significado .
As enormes extensões de terras devolutas chegavam a desestimular um único sesmeiro. Solitário em sua fazenda, sem vizinhos e longe de qualquer ponto civilizado, o sesmeiro sentia-se desprotegido e vulnerável. Assim, vinham irmãos e demais parentes que se instalavam relativamente perto uns dos outros, surgindo dai um estimulo entre essa parentela.
Dessa forma, Miguel Antônio do Monte Medeiros precedeu ao irmão Sebastião em poucos meses, chegando à região com uma carta de sesmaria datada de 27 de fevereiro de 1755. No início do ano seguinte, já existia a Fazenda da Vargem Alegre, que contava com 45 escravos, animais de trabalho e criações.
Em agosto de 1756, chega Sebastião do Monte Medeiros da Costa Camargo, que também não tarda a fundar sua fazenda: a Fazenda do Córrego das Almas. Sua carta de sesmaria havia sido concedida em 03 de junho de 1756.
Com formação militar, Sebastião do Monte, no posto de Capitão, assume o Comando das Ordenanças do Distrito da Ponte Nova.
Apesar de o título de Distrito de Ordenanças ser dado apenas a uma paróquia ou freguesia, Ponte Nova, em 1775, ainda Capela Filial da Freguesia do Furquim, já havia sido elevada a esta categoria.
O terceiro irmão só viria mais tarde, pois concluía, na época, seus estudos no Seminário de Mariana. Ordenado padre em 1763, João do Monte Medeiros seguiu, imediatamente, para ocupar sua sesmaria, situada nas terras banhadas pelo ribeirão Tavoassu (Vau-Açu) e que fora doada pela carta de 30 de junho de 1756.
Documentos indicam que, em abril de 1768, o padre João do Monte de Medeiros já havia instalado sua Fazenda do Vau-Açu, dotando-a de uma "Casa Sede", uma senzala, um depósito e um curral de porcos.
Essa "casa sede", uma das primeiras edificações de toda região, existe ainda hoje, servindo de sede à propriedade denominada Fazenda Vau-Açu ou Usina Santa Helena, no Km 07 da rodovia que liga Ponte Nova a Viçosa.
Como o Padre João do Monte de Medeiros haviam vindo também sua mãe, D. Maria da Costa Camargo, e sua irmã Catharina do Monte. Ambas eram portadoras de cartas de sesmaria e, apesar de viúvas, conseguiram formar, com arrojo e dedicação, as Fazendas Santa Rita e Mata-Cães, respectivamente.
Outros sesmeiros iam também se instalando: Antônio Gonçalves Torres, que denomina Fazenda do Pontal sua propriedade; Sebastião Marques, que constrói a Fazenda dos Oratórios de Baixo; José do Valle Cunha, que funda a Fazenda dos Oratórios de Cima; Aleixo Alvez Coura, que instala a Fazenda do Pombal; Domingos Alves Torres, que se estabelece na Fazenda do Engenho; etc.
O padre João do Monte Medeiros era um exemplo do homem dinâmico e trabalhador. Logo sua fazenda passou a produzir em abundância, e seus produtos passaram a ser comercializados, também, em Furquim e Mariana, conforme documentos datados de 1772.
A Fazenda do Vau-Açu tornou-se, em pouco tempo, próspera e rica. passando a ser citada como exemplo de desenvolvimento da região.
A família Monte Medeiros integrou-se à região. Seus membros, muito ligados entre si, mantinham um sistema de cooperação, de forma que pelo menos as quatro fazendas da família, situadas a margem direita do rio Piranga, funcionaram interligadas, desprezando, inclusive, as divisas entre elas.
Essa idéia cooperativista deixa-se transparecer em carta assinada por Sebastião do Monte, datada de 1762, quando se dispõe a reformar uma ponte sobre o no Piranga que, afirma ele, iria não só beneficiar o caminho para Mariana, como serviria para facilitar as viagens às terras de Catharina, sua irmã, na outra margem do Piranga.
O próprio sistema de concessão de sesmarias exigia que o sesmeiro, em quatro anos, procedesse à demarcação oficial de suas terras e requeresse a confirmação da carta.
De acordo Com as demarcações das terras dos Monte Medeiros, oficializadas em 17 de setembro de 1758, a primeira, mais próxima do rio, compreendendo inclusive o local onde se acham construídas hoje a Matriz, a Prefeitura, a Praça Getúlio Vargas etc., era a Fazenda Santa Rita, de D. Maria. A seguir, no sentido leste, achava-se a Vargem Alegre, de Miguel. Depois vinha a Fazenda do Vau-Açu, do Padre João, e, por ultimo, a do Córrego das Almas, de propriedade de Sebastião do Monte.
Na década de 60 daquele século, falecendo D. Maria da Costa Camargo, matriarca dos Monte Medeiros, sua fazenda passa, por herança, a seus filhos.
Dotado de espírito empreendedor, o padre João Medeiros sonhou com o surgimento, ali, naquele sertão, de uma cidade, que pudesse acolher homens de bem e gerar filhos dedicados, que, como ele, "amassem aquela terra dadivosa".
Tratou logo de solicitar uma autorização ao bispo de Mariana para construir uma capela, onde pudessem ser administrados aos santos sacramentos. A seu pedido de 1º. De julho de 1970 atende uma autorização passada no dia 06 do mesmo mês, por Vicente Gonçalves Jorge de Almeida, como se lê na transcrição seguinte:
"Vicente Gonçalves Jorge de Almeida, Cônego Prebento na Santa Igreja Catedral de Mariana, nela e em todo bispado Vigário Capitular pelo Ilmo., sede vancante, etc. A todos os fiéis cristãos, nossos súditos, saúde e paz em Jesus Cristo Nosso Senhor. Fazemos saber que, atendendo nós ao que por sua petição nos enviou a dizer o padre João do Monte de Medeiros: Havendo por bem conceder-lhe licença, pela presente Nossa Provisão, para que em sua fazenda, sita da outra parte do Rio Guarapiranga, na freguezia do Senhor Bom Jesus do Monte do Furquim e lugar que determinam as Constituições, possa erigir uma Capela com a invocação de São Sebastião e Almas, a qual será fabricada de materiais duráveis, com boa proporção e arquitetura e depois de ereta e decentemente paramentada com os ornamentos das quatro cores de que usa a igreja, Pedra D'ara Sagrada de suficiente grandeza, Cálix e Patena de prata e todos os mais paramentos necessários para a decente celebração do Santo Sacrifício da Missa, e, feito o seu patrimônio, recorrerá a Nós para mandarmos visitar e benzer na forma do Ritual Romano e darmos licença para neles se poder celebrar sem prejuízo dos direitos paroquiais e da Fábrica da Matriz. Terá um livro em que estejam encadernados todos os documentos pertencentes à mesma Capela. Será registrada esta no livro do Registro Geral da Câmara Eclesiástica. Dada nesta cidade de Mariana, sob o nosso sinal e sêlo da Mesa Capitular, aos 6 de julho de 1770 com a cláusula de assinar o têrmo de sujeição pelo qual se sujeite a dita Capela à nossa Jurisdição e de nossos sucessores.
E eu, João Soares de Araújo, Presbítero secular e Escrivão da Câmara Eclesiástica a escrevi.
Vicente Gonçalves Jorge de Almeida."

Desenho da Capela construída pelo Padre João do Monte Medeiros
De posse da autorização eclesiástica, foi iniciada, imediatamente, a construção da Capela, posto que, em menos de seis meses, já se encontrava pronta. Foi construída às expensas do Padre João do Monte Medeiros, que, para tanto, dispendeu soma significativa de dinheiro. A localização da capela, a mesma onde se encontra a Matriz de São Sebastião de Ponte Nova, não foi escolhida ao acaso. No alto do espigão, que servia de limite para as terras do Padre, tudo se avistava: o caminho para Mariana, as colinas em volta, o rio Piranga serpenteando pelo vale, a pequenina ponte de madeira...
Segundo consta, a última parede da sacristia dessa capela corria junto uma linha divisória das propriedades que o Padre João do Monte havia herdado de sua mãe e dos sucessores de Domingos Gonçalves Torres.
A primeira Capela de Ponte Nova já estava pronta em dezembro de 1770, sendo constituído seu padroeiro, por concessão episcopal, o próprio Padre João do Monte Medeiros e, para seu orago, São Sebastião.
O Cônego Trindade defende a teoria de que a escolha de São Sebastião para orago da capela teria sido uma homenagem a Sebastião do Monte Medeiros, irmão do Padre.
"Nestas terras, na paragem chamada Ponte Nova, fundou o Padre Monte uma capela e dedicou-a a São Sebastião e Almas; São Sebastião em homenagem ao seu irmão, aquele a quem devia em grande parte seu patrimônio, Sebastião do Monte."
Para construir o patrimônio canônico da Capela de São Sebastião e Almas de Ponte Nova, o Padre Monte doou parte de suas terras, em 15 de dezembro de 1770.
Por intermédio de uma procuração passada aos padres Caetano Pinto da Mota e Francisco Soares de Araújo, o padre João do Monte doou, em cartório de Mariana, as terras que iam da barra do ribeirão Vau-Açu ao alto do espigão, onde se situava a capela, como se vê na procuração transcrita a seguir:
" Por esta por mim feita e assinada de minha livre vontade, faço e nomeio para meu bastante procurador ao muito Reverendo Senhor Caetano Pinto da Mota e au Senhor Francisco Soares Araújo para que possam assinar por mim, como se presente fosse, uma escritura de patrimônio que faço para uma Capela sita em terras minhas na Ponte Nova do Piranga e fará partilha de parte de cima do espigão, e debaixo no outro espigão que ficará sobre a cachoeira do córrego, e por cima ficará partido comigo na Sesmaria e me ficará livre o espigão e lugar da dita Capela; e para isto concedo e peço façam tudo o que a mesma justiça requerer para a segurança do dito patrimônio, o qual faço de minha livre vontade em terras a mim concedidas e passadas, e faço deixação delas por meus procuradores nomeados e só reservo toda a nova citação, hoje a treze de dezembro de mil sete centos e setenta. O Padre João do Monte de Medeiros firma reconhecida pelo Tabelião Francisco do Rêgo Andrade."
As cidades coloniais brasileiras, geralmente, nasciam às margens de um rio. Dentre as primeiras providências tomadas, era a construção da capela que com seu arogo e devidamente benzida, se tornava o ponto vital de toda comunidade.
A origem e a fundação de Ponte Nova não fugiram à regra. Se um pequeno núcleo surgiu às margens do rio Piranga, antes mesmo da chegada dos primeiros sesmeiros colonizadores, o arraial só adquiriu personalidade canônica à época da construção de sua primeira capela, pelo padre João do Monte e, naquela época, a personalidade canônica determinava, jurídica e administrativamente, a situação do lugar.
O Padre não se limitou em erigir e paramentar o templo. Dotou-o também de um cemitério e doou à Igreja "uma porção de terras", desmembrada de sua fazenda, no dia 15 de dezembro de 1770, atitude que permitiu o surgimento de Ponte Nova, dentro dos padrões da época, inserida no contexto da Província.
Este dia é, portanto, a data correta da fundação de Ponte Nova e deveria ser comemorado, reverenciado aquele que, com seu despreendimento e idealismo, a fundou.

Foto: João Brant
Casa-sede da Fazenda Vau-Açu. Ainda conserva o mesmo padrão estrutural idealizado por seu fundador..
Ainda Sobre o fundador de Ponte Nova, pode-se dizer que era homem austero, de gênio forte e indômito.Sabe-se que suas respostas eram eram cheias de dignidade e de respeito, nas francas, arguindo personalidade feita de caráter de boa têmpora. Ele nasceu no dia 08/08/1730, em São Caetano de Mariana, sendo o quarto filho do alferes João do Monte de Medeiros e de D. Maria da Costa Camargo. Há notícias de que o padre João administrava suas terras com muita fibra e energia e que dava exemplo aos seus escravos de como deveriam trabalhar, a ponto de pegar literalmente "na enxada". Não se sabe ao cetto quando faleceu e nem onde repousam seus restos mortais, se sob o altar da capela de Ponte Nova - aquela mesma que ele construiu, ou em um pequeno cemitério de uma das fazendas da família, provavelmente a do Córrego das Almas.
Carta de Sesmaria do Padre João do Monte de Medeiros: