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'Enxergaram em mim coisas que eu não via': a jovem porteira de Cuiabá que virou modelo internacional

O emprego na portaria de um prédio em Cuiabá (MT) é uma das lembranças mais recentes da jovem Rosangela Figueira da Silva Santos, de 23 anos. Durante dois anos, a rotina dela era a mesma: saía de casa às 4h, pegava dois ônibus, chegava ao serviço às 6h e só saía dali às 18h. Então voltava para casa, na periferia da capital mato-grossense, onde só conseguia pôr os pés por volta das 20h.

Desde maio, porém, sua rotina mudou. A jovem cuiabana foi descoberta por um olheiro de uma agência de modelos e chamada para participar de um workshop sobre moda. Em junho, deixou o emprego - que lhe pagava um salário mínimo - e começou a viajar o mundo fazendo desfiles e fotos.

Rosangela tornou-se Roza Figueira, cortou o cabelo, deixou a família em Cuiabá e foi atrás do antigo sonho de ser modelo, que tinha deixado de lado após uma série de rejeições em concursos de beleza. Seu primeiro destino foi Nova York, onde ficou por três meses. Depois, seguiu para Milão, então Paris e agora Londres, onde vive atualmente.

Filha mais nova de cinco irmãos, a jovem parou de estudar no primeiro ano do ensino médio, aos 16 anos - deixou a escola para trabalhar e ajudar a mãe, que é faxineira. Vivia com ela e o padrasto em uma casa simples.

Atuou como babá e apontadora de obras antes de conseguir o emprego como porteira. Foi indicada pela irmã, que trabalhava no local havia seis anos.

"Eu estava precisando muito de emprego. Já havia entregado muitos currículos e não havia aparecido nenhuma oportunidade quando me chamaram para ser porteira. Em um mês no emprego, me adaptei e aprendi muita coisa. Foram os melhores anos da minha vida até aqui", conta.

Trabalhava em regime de 12 por 36 horas. "Eu amava o meu serviço, fazia por prazer. Sempre fui muito bem acolhida pelas pessoas."

Mas em uma manhã de maio, enquanto atuava na portaria de um prédio, Roza foi descoberta pelo caça-talentos Jocler Turmina, que estava hospedado em um dos apartamentos do local.

Roza com os antigos colegas de portariaImage captionRoza com os antigos colegas de portaria: 'Foram os melhores anos da minha vida até aqui'

"Quando a vi na recepção, sugeri que ela participasse de uma palestra sobre moda que eu estava ministrando em Cuiabá. Ela foi. Nesse dia, eu fiz fotos com meu celular, apresentei as imagens dela para os meus sócios, Murylo Lorensoni e Mariana Rotta, e todos a adoraram."

Roza relembra que se surpreendeu com a resposta positiva para ingressar no mundo da moda.

"Eu nunca imaginei que um dia fosse me tornar reconhecida, que as pessoas fossem enxergar em mim coisas que eu não via. Eles viram meu potencial e a minha beleza. Nunca pensei que eu pudesse representar o Brasil e que alguém pudesse me achar bonita, pois nunca me enxerguei assim."

Carreira internacional

Em junho, Roza iniciou a preparação para seguir carreira como modelo. No mês seguinte, embarcou para Nova York, onde fez seus primeiros trabalhos no mundo da moda.

Ela não chegou a atuar no Brasil. Seu sucesso internacional - atualmente é vinculada a agências nos Estados Unidos, Itália, França e Inglaterra - surpreendeu Turmina. "Ela teve uma aceitação muito rápida nos principais mercados, onde concorrência é brutal", afirma o caça-talentos.

Roza já trabalhou com a prestigiada estilista inglesa Vivienne Westwood e fotografou para revistas internacionais como The Squad, Paper Magazine e Interview. Neste mês, tornou-se capa da edição brasileira da revista Happer's Bazaar, cujas fotos foram feitas em Nova York.

Sua vida tem sido movimentada. A jovem passou a viver em constante ponte aérea entre diversos países, onde participa de seleções e é apresentada a clientes do mundo da moda. Nos próximos meses, deve fixar moradia nos Estados Unidos, em um apartamento cedido pela agência, e permanecer viajando pela Europa. "A fase agora é de muita disciplina", diz Turmina.

Roza Figueira na capa da Harper's BazaarImage caption'Nunca pensei que eu pudesse representar o Brasil e que alguém pudesse me achar bonita, pois nunca me enxerguei assim'

O idioma foi um dos maiores entraves enfrentados por Roza ao deixar o Brasil. A jovem nunca estudou inglês, e temeu que a falta de conhecimento sobre a língua a prejudicasse.

"Eu tive dificuldades para aprender a lidar com o inglês. Logo que descobri que iria para os Estados Unidos, não tive condições de pagar aulas particulares. Tive que assistir a vídeos na internet, procurei dicionários e comprei alguns livros para aprender mais. Eu me esforcei ao máximo."

Com pouco tempo de carreira, ela diz que ainda não tem dinheiro para ajudar a família em Cuiabá. Mas planeja voltar a estudar, concluir o ensino médio, se formar em psicologia e se consolidar no mercado da moda.

E mantém a disciplina que tinha para sair de casa às 4h da manhã e não chegar atrasada na portaria.

"Prefiro acreditar que a minha rotina atual é a mesma de sempre. Acordo cedo para fazer as fotos ou os desfiles, e não tenho hora para voltar para casa. Para mim, é um trabalho como qualquer outro, mas a diferença é que estou fazendo aquilo que mais amo. Estou vivendo um sonho."

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Micróbios, cavernas e dragões de Komodo: onde os cientistas buscam novos antibióticos

A história da medicina está repleta de casos de substâncias descobertas por acaso e que revolucionaram o tratamento de pacientes.

Há quase 90 anos, Alexander Fleming descobria acidentalmente a penicilina ao sair de férias e esquecer uma amostra de bactérias exposta ao ar em seu laboratório.

Na década de 1950, era de ouro da descoberta de antibióticos, novos medicamentos eram patenteados com frequência.

E, hoje, cientistas seguem em busca de novos antibióticos. Para isso, eles testam micróbios das mais variadas fontes - de cavernas ao sangue de dragões de Komodo -, ao mesmo tempo que desenvolvem drogas sintéticas, criadas em laboratório.

Apesar dos avanços, há cada vez menos antibióticos eficazes. O medicamento, que combate infecções no corpo, é essencial para assegurar desde o sucesso de um transplante de órgãos até o tratamento de uma intoxicação alimentar.

Bactérias mortais resistentes à penicilina - ou os mais de cem antibióticos desenvolvidos nos últimos 90 anos - são responsáveis pela morte de 700 mil pessoas anualmente. Se nada mudar, o número de óbitos pode chegar a 10 milhões por ano até 2050.

O uso excessivo e indevido destas drogas acende o alerta sobre um possível futuro em que não haja antibióticos eficazes.

Mas por que, em uma época de tantos avanços médicos e científicos surpreendentes, é tão difícil obter os novos antibióticos de que o mundo tanto precisa?

Corrida contra superbactérias

A resposta se encontra, em parte, no desafio científico, mas também na carência de investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

A parte menos conhecida da história de Fleming é que foram necessários anos de pesquisa e cooperação até que a penicilina se tornasse, na década de 1940, o primeiro antibiótico do mundo.

Alexander Fleming em seu laboratórioDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionAlexander Fleming foi responsável pela descoberta da penicilina, que revolucionou a medicina

E o próprio Fleming advertiu, desde o início, que as bactérias poderiam se tornar resistentes aos medicamentos.

Sob a ótica do paciente, os antibióticos podem parecer um simples tratamento contra infecções. Mas cada um deles tem uma relação complexa com as bactérias que deve destruir.

Todos os micro-organismos evoluem, e aqueles que desenvolvem sistemas de defesa contra os antibióticos sobrevivem, enquanto os demais morrem.

Quanto mais antibiótico a gente toma, mais rapidamente as bactérias desenvolvem resistência a eles. No Reino Unido, por exemplo, estima-se que 20% das receitas médicas de antibióticos sejam desnecessárias.

O uso indevido e excessivo destas drogas resulta em uma corrida sem trégua para estar sempre um passo à frente das superbactérias.

Fontes inusitadas

Atualmente, algumas fontes surpreendentes de antibióticos estão sendo investigadas.

Cientistas acreditam, por exemplo, que o réptil conhecido como dragão de Komodo, que habita um arquipélago na Indonésia, tenha em seu sangue um componente capaz de tratar feridas infeccionadas.

E que formigas cortadeiras da Amazônia se associam a bactérias para proteger seus ninhos.

Enquanto isso, um antibiótico capaz de combater superbactérias foi encontrado dentro do nariz humano.

E, não menos importante, a sujeira continua a ser uma importante fonte de novos compostos antibacterianos.

Anos de testes

É fácil encontrar agentes químicos que matam bactérias. O desafio maior é descobrir e desenvolver substâncias que não sejam tóxicas para os seres humanos.

Além disso, o caminho da descoberta até a aprovação de um medicamento para uso clínico é inevitavelmente longo, e o risco de fracasso é alto.

O processo começa com pesquisas básicas, para identificar organismos que produzam substâncias antibióticas.

SuperbactériaDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionUso excessivo de antibióticos apressa o surgimento de superbactérias resistentes

Milhares de possibilidades são então avaliadas, em um processo que, por si só, pode levar anos.

Os cientistas analisam diferentes agentes químicos e combinações para enfraquecer as bactérias. Algumas combinações podem atacar paredes celulares ou interferir na forma como as células bacterianas agem - ou em seu metabolismo.

Combinações bem-sucedidas são testadas e, se o resultado for promissor, avalia-se também se há efeitos tóxicos em seres humanos, assim como a viabilidade para produção em larga escala.

Só a partir daí que começam a contar os anos de testes clínicos.

No total, o processo pode levar de dez a 20 anos - do momento da descoberta até a obtenção do medicamento.

Sem novas descobertas

É claro que a complexidade e a incerteza têm um preço. É aí que fica evidente o desajuste econômico desse mercado.

Os antibióticos não são apenas complexos de serem produzidos, como tampouco podem ser vendidos livremente.

Isso faz com que não sejam vistos como uma oportunidade de investimento atraente.

Nos últimos 30 anos, as companhias farmacêuticas reduziram significativamente seus esforços para o desenvolvimento de novos tratamentos antibactericidas. Passaram-se décadas sem que novas classes de antibióticos fossem criadas.

Tanto que todas as drogas do tipo que entraram no mercado nas últimas décadas são variações de medicamentos descobertos até 1984.

E o mais preocupante é que faz muito tempo - desde 1962 - que foi descoberta a mais recente classe de antibióticos responsável por tratar pessoas infectadas por superbactérias resistentes do tipo gram-negativas. Essa categoria inclui bactérias que causam doenças graves e muitas vezes fatais, como infecções sanguíneas e pneumonia.

Outra preocupação atual é com bactérias cada vez mais resistentes e que causam doenças mais comuns, como intoxicação alimentar por salmonela ou gonorreia.

Nos últimos anos, tem crescido a consciência global em relação ao perigo das bactérias resistentes a medicamentos. Se nada for feito, elas podem causar mais mortes do que o câncer em 2050. Setores da iniciativa pública e privada começaram a trabalhar juntos para encontrar soluções.

Segundo dados de maio deste ano, um total de 51 antibióticos estava em fase de desenvolvimento clínico - sendo um terço destinado a atacar patógenos prioritários, 12 famílias de bactérias vistas como uma perigosa ameaça à saúde humana.

No entanto, a minoria desses medicamentos é de produtos inovadores, ou seja, não baseados em antibióticos já existentes.

Cartaz em hospital diz 'pare e lave suas mãos'Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionCartaz em hospital diz 'pare e lave suas mãos'; mais higiene é crucial para evitarmos que as bactérias se espalhem

Mais que sorte

Novas drogas são vitais, mas a solução para o problema é muito mais complexa.

Também é necessário explorar o potencial das vacinas para proteger contra as infecções. E, ao mesmo tempo, diagnósticos mais precisos poderiam ajudar os médicos a prescrever com mais eficiência o tratamento adequado.

Outra urgência diz respeito a um melhor entendimento sobre o alastramento de infecções resistentes a drogas - não apenas entre seres humanos, mas entre animais e no meio ambiente.

Se conseguirmos melhorar a higiene em hospitais, clínicas e nas próprias comunidades, também conseguiremos evitar que as infecções se espalhem.

E, se queremos estar na dianteira das superbactérias, não podemos depender da sorte que Fleming teve em 1928. Precisamos de um esforço conjunto da indústria e dos governos para avançar nos testes de drogas promissoras e levá-las ao mercado.

E, talvez mais importante que tudo isso, seja o fato de que precisamos dar a esse ramo maravilhoso da medicina o respeito que ele merece. Antibióticos, sejam velhos ou novos, são um recurso valioso a ser usado apenas quando necessário para proteger e melhorar a nossa saúde.


*Esta análise foi solicitada pela BBC a um especialista de uma organização externa. Tim Jinks é especialista em infecções resistentes a drogas da Wellcome Trust, que apoia o desenvolvimento de antibióticos por intermédio de sua parceria com a CARB-X, nos Estados Unidos. No último ano, a organização anunciou financiar 18 projetos contra bactérias resistentes gram-negativas, incluindo oito potenciais novas classes de antibióticos.

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Cientistas descobrem fósseis de um dos primeiros ancestrais do homem e outros mamíferos

Fósseis dos mais antigos ancestrais conhecidos dos mamíferos atuais, inclusive de seres humanos, foram descobertos no sul da Inglaterra.

Dentes dessas criaturas estavam em rochas de penhascos de Dorset, em uma região conhecida como Costa Jurássica. Cientistas que identificaram esses materiais dizem que eles têm 145 milhões de anos.

Esses mamíferos antigos eram muito pequenos e peludos, e provavelmente tinham hábitos noturnos. O menor deles possivelmente vivia em buracos sob a terra e se alimentava de insetos. O outro, um pouco maior, pode ter comido também plantas.

Seus dentes eram muito desenvolvidos e capazes de perfurar, cortar e triturar comida. "Também estavam muito gastos, o que sugere que os animais atingiram uma idade avançada para sua espécie", afirma o cientista Steve Sweetman, da Universidade de Portsmouth, que examinou os fósseis.

"É um grande feito levando em conta que eles compartilhavam seu habitat com dinossauros predadores."

Os fósseis foram achados por Grant Smith, então um estudante universitário. Ele estava analisando amostras de rocha coletadas para seu trabalho de conclusão de curso quando encontrou um tipo de dente nunca antes visto em pedras dessa época.

Pesquisadores da Universidade de PortsmouthImage captionDentes estavam em rochas coletadas por estudante universitário para seu trabalho de conclusão de curso | Foto: Steve Sweetman

"Novos segredos estão sempre vindo à tona na Costa Jurássica, e acredito que descobertas parecidas continuarão a ser feitas em nosso quintal", diz Dave Martill, da Universidade de Portsmouth, que supervisionou o projeto.

Uma das novas espécies foi batizada como Durlstotherium newmani, em homenagem a Charlie Newman, dono de um bar próximo ao lugar onde os dentes foram encontrados, e que é colecionador de fósseis. A segunda foi chamada de Dulstodon ensomi, por causa de Paul Ensom, um paleontólogo local. Os achados foram publicados no periódico científico Acta Palaeontologica Polonica.

As descobertas estão entre as mais novas evidências trazidas à tona em uma área de estudos marcada por debates acalorados.

Descobertas recentes na China fizeram com que a idade do mamífero mais antigo conhecido fosse ampliada para 160 milhões de anos. Mas isso é colocado em questão por outros especialistas, que se baseiam em estudos moleculares.

Uma pesquisa que veio a público nesta semana indica que os primeiros mamíferos eram criaturas noturnas, que só passaram a ter hábitos diurnos após a extinção dos dinossauros.

Publicada no periódico Nature Ecology and Evolution, ela poderia explicar por que muitos mamíferos atuais são noturnos.

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Por que os massacres nos EUA estão cada vez mais mortíferos?

Pesquisadores também analisaram as leis. Uma proibição à venda de armas de rifles semiautomáticos e cartuchos de alta capacidade foi instaurada em 1994 e derrubada em 2004. Especialistas dizem que, com o fim desse veto, foi dado início a uma nova era de massacres.

Com essas armas, os atiradores puderam disparar mais rapidamente e por mais tempo, matando mais pessoas nos atentados.

Os Estados americanos têm leis próprias. Depois do ataque à Sandy Hook, Connecticut aprovou uma lei que baniu os fuzis semiautomáticos. Outros afrouxaram suas legislações, no entanto. Na Georgia, por exemplo, foi aprovada uma lei que permite às pessoas portar armas em salas de aulas, boates e outros locais.

Especialistas do Centro Legal Giffords de Prevenção de Violência com Arma publicaram que Estados com controles mais rígidos nessa área tendem a ter menos violência armada.

Atiradores escolhem seus alvos com mais cuidado

Os atentados são realizados atualmente em locais onde há um grande número de pessoas, como o festival de música em Las Vegas, que tinha um público de 22 mil pessoas. "Com essa multidão, o atirador não precisa nem mirar", diz Jay Corzine, da Universidade da Flórida Central.

A maioria dos autores de ataques a tiros os planeja com muito cuidado, segundo o Homicide Studies, periódico científico dedicado a estudos sobre homicídios. "Eles estão fazendo o dever de casa", explica Corzine. Essa preparação, afirma o especialista, significa que os atiradores conseguem fazer mais vítimas.

O autor do ataque em um cinema de Aurora, no Colorado, em 2012, havia imaginado, por exemplo, que aquele local "permitiria um maior número de mortos", diz Adam Lankford, da Universidade do Alabama.

Os atiradores se inspiram na mídia

A cobertura de massacres, assim como os próprios ataques, se intensificou nos últimos anos. Atiradores publicam em redes sociais antes de agir e, às vezes, enquanto estão agindo.

Organizações de mídia criam páginas com atualizações em tempo real. Além disso, os jornalistas concentram seus esforços em dizer quem eram os atiradores, o que contribuiria para glorificar esses indivíduos.

Homenagem às vítimas de ataque á escola Sandy HookDireito de imagemGETTYImage captionEm 2012, 27 poessoas morreram no massacre da escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut

Ainda assim, dizem especialistas, as reportagens não levaram a um aumento no número de mortos em ataques. "Acompanho há 25 anos os relatos da mídia sobre ataques a tiros, e o aumento do número de vítimas é bem recente", afirma Corzine.

Mas a cobertura da imprensa pode servir de inspiração para novos atentados. "Massacres são contagiosos", diz Gary Slutkin, fundador da ONG Cure Violence, que se dedica a combater a violência. "As pessoas veem o que os outros fazem e imitam."

Os atiradores competem entre si

Dylan Klebold, um dos atiradores do ataque à escola Columbine, em Littleton, no Colorado, em 1999, descreveu seu objetivo: "O maior número de mortes da história dos Estados Unidos".

"É uma disputa por notoriedade", explica Lankford. "Por fazer mais e melhor do que os atiradores que vieram antes."

Ficar famoso desta forma pode parecer um jeito doentio de buscar a glória. Mas isso tem apelo para alguns. "Todos queremos ser conhecidos após morrermos", diz Slutkin ao descrever como os atiradores contemplam a fama sem refletir direito sobre seu próprio destino ao atingir esse objetivo.

"Eles não pensam em tudo direito. Isso mostra o quão poderoso esse desejo pode ser."

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O encontro com desconhecida que fez homem com esclerose múltipla desistir do suicídio

Colin Campbell havia marcado sua morte para 15 de junho de 2017, uma quinta-feira. Ele viajaria para a Suíça, onde se internaria em uma clínica de suicídio assistido para dar fim a sua vida aos 56 anos de idade. Mas uma amizade com uma desconhecida o levou a adiar sua partida.

"Fiquei bem surpreso ao acordar na sexta-feira. Eu havia anunciado publicamente que a quinta-feira seria o dia da minha morte e estava preparado para não estar mais aqui, mas estava", diz Colin, que tomou foi diagnosticado em 1995 com esclerose múltipla, uma doença degenerativa do sistema nervoso.

O problema primeiro se manifestou como uma crescente dificuldade de Colin para praticar esportes. Conforme sua mobilidade foi ficando limitada, ele teve de deixar seu emprego como consultor de tecnologia da informação. E também ficou mais vulnerável a outras doenças.

Vivendo só em um apartamento no segundo andar de um edifício sem elevador, sentia-se como um "prisioneiro" em sua própria casa, sem conseguir sair e entrar sem ajuda. Ele perdeu aos poucos o contato com seus amigos. "Decidi que não suportaria passar por mais um inverno depois de ser hospitalizado duas vezes em três meses", diz ele.

Em abril de 2017, decidiu que a melhor saída seria se inscrever em um serviço suíço que presta auxílio a quem deseja se matar, e foi rapidamente aceito. Esse tipo de procedimento é ilegal na Escócia, onde Colin vive - uma tentativa de mudar a lei foi rejeitada pelo Parlamento em 2015.

Enquanto esperava por sua partida, ele participou de um programa de TV sobre a legalização do suicídio assistido. Foi como Rona Tynan, que vivia na mesma cidade de Colin, Inverness, conheceu sua história.

Rona TynanImage captionRona também tem esclerose múltipla e soube da história de Colin pela televisão

"Ouvi as palavras 'esclerose múltipla' e 'Inverness' e corri pra frente da TV. Foi desesperador saber que ele pretendia agir daquela forma", diz Rona, que também sofre da doença.

Casada e com filhos, ela levava uma vida ativa e feliz, ainda que na época já tivesse perdido os movimentos do lado esquerdo do corpo e começasse a sentir o lado direito cada vez mais fraco.

Um ano antes, porém, também estava desesperançosa. Mas seu primo percebeu que Rona não estava recebendo toda a ajuda a que tinha direito e entrou em contato com os serviços de assistência social. Logo ela passou a ter mais apoio.

"Minha preocupação era se Colin tinha o suporte adequado para ter qualidade de vida e queria muito tentar ajudá-lo", diz ela. "Não queria que ele pensasse que eu estava desrespeitando sua decisão, mas não queria que um homem fosse de encontro à morte só porque não estava recebendo a ajuda adequada."

Auxílio

Ela tinha razão em estar preocupada. Quando se conheceram, algumas semanas antes da data do suicídio de Colin, Rona descobriu que ele estava mal informado sobre a assistência disponível para pessoas como ele, inclusive sobre como algo tão simples quanto ter direito a uma moto adaptada para ajudar com sua mobilidade.

"Eu gosto de andar pela cidade, e a moto fez a vida voltar a fazer sentido. Queria que Colin a testasse para não ficar preso ou isolado", diz ela. "Às vezes, você pensa que não há muitas coisas a seu favor, mas sentia que estar ao ar livre, rodeado por pessoas e amigos, poderia fazer uma grande diferença na vida dele."

Rona conseguiu uma moto para Colin experimentar, e ele a achou bastante útil. Mas conta que, apesar de seus conhecimentos sobre esse sistema de apoio, ela própria enfrentou dificuldades para conseguir a ajuda necessária.

"Gastei muito dinheiro com coisas como elevador e serviços particulares, mas ainda não consegui uma rampa. Se essas coisas fossem dadas a nós ou a ajuda adequada fosse fornecida o quanto antes, a vida seria muito mais fácil."

O serviço público de saúde da Escócia diz que coloca todo paciente com esclerose múltipla em contato com um enfermeiro especializado para que seja informado sobre a assistência disponível e que, no caso de Colin, esse profissional continua a dar a ele todo o "apoio necessário".

Colin e RonaImage captionVivendo na mesma cidade de Colin, Rona quis mostrar a ele alternativas ao siucídio assistido

Mas Rona diz ter ficado surpresa por nenhum serviço público ter agido após Colin anunciar publicamente sua decisão de dar fim à própria vida ou sugerido a ele alternativas. "É muito triste que ele tenha ido à Suíça sem saber de coisas simples", diz ela.

Vulnerabilidade

Colin afirma que, ao visitar a clínica na cidade da Basileia, teve de ser aprovado em seis testes para garantir que não estava em uma situação de vulnerabilidade ou sendo coagido.

"Se fosse reprovado em algum deles, não me prescreveriam o necessário para o suicídio voluntário", conta ele. "Não basta dizer simplesmente 'vou me matar'. Se você decide ir à Suíça, isso requer planejamento. É uma decisão muito bem pensada."

No entanto, ele admite que a clínica não garantiu que ele havia esgotado toda as vias para obter a assistência de que precisava.

O jornalista Mik Scarlet, membro da Not Dead Yet UK, um grupo britânico de pessoas com deficiência que se opõe ao suicídio assistido, diz que implementar esse tipo de salvaguarda seria essencial para que esse serviço fosse legalizado no Reino Unido.

Paralisado desde os 15 anos, Mik tentou se matar dois anos depois de se encontrar nessa condição. "Entendo o medo e a falta de perspectiva, mas muito disso se deve à falta de apoio, e a história de Colin é simbólica do que nos preocupa", diz.

Mik Scarlet em um evento da OuchImage captionMik Scarlet tentou se matar dois anos depois de ficar paralisado, mas hoje advoga contra o suicídio assistido

"Você não pode dizer que tomou uma decisão embasada se você não sabe sobre motos adaptadas ou planos de assistência."

Esforço conjunto

Por iniciativa de Colin, ele e Rona começaram a buscar tratamentos, e ela viajou para o México para participar de uma pesquisa com células tronco. A terapia arriscada implica em eliminar o sistema imunológico de uma pessoa com fortes medicamentos para câncer e criar um novo com um transplante desse tipo de célula, para conter o progresso da esclerose múltipla.

Em um estudo recente, das 281 pessoas que passaram pelo tratamento, quase metade teve benefícios, mas oito morreram pouco depois. A recuperação pode levar até dois anos e custa 50 mil libras (R$ 212,3 mil), que Rona teve de arrecadar com doações.

Enquanto ela se recupera no México, Colin desfruta de uma nova vida em seu apartamento térreo em Greenock, a 322 km de Inverness.

Colin CampbellImage captionColin desistiu do suicídio assistido – por enquanto | Foto: Northpix Ltd

Apesar da mudança para tão longe, ele diz: "Tem sido ótimo. Cuidam de todas as refeições e coisas essenciais para mim".

Mas ele continua a pensar no inverno e se quer enfrentá-lo uma vez mais. "Não é agradável. Com a esclerose, você tem grandes chances de ter uma infecção no tórax. Você desenvolve uma tosse, que depois vira pneumonia, e a pneumonia te mata", diz.

"Estava esperando que aquela quinta-feira fosse meu último dia no planeta Terra. Estou na prorrogação, mas sou realista. Meus planos não foram cancelados."

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'O momento não precisava ser sofrido': a história das grávidas que aliviaram tensão do parto com 'humanização' e coreografias

De um lado para o outro. Para frente e para trás. Um quase agachamento. Em meio ao corredor de um hospital em Vitória, no Espírito Santo, Elizeni Garcia de Campos, a Liz, de 41 anos, movimenta pernas, quadril, levanta as mãos e gira ao ouvir o hit Despacito.

Entre passos embalados pelo ritmo, a barriga endurece e ela entende o sinal de mais uma contração: é a filha, Marina, que está chegando.

A gaúcha dançou em agosto deste ano ao fim de quatro dias de trabalho de parto. A dança também aconteceu três anos e meio depois de uma cesariana, a que acabou se submetendo contra sua vontade.

O que Liz sempre quis foi parto normal. Mas, no momento de ter o primeiro filho, diz ter sido empurrada para uma "cirurgia" seguida de "abalo emocional, depressão e medo de", em uma nova gravidez, "bater na trave de novo e ser impedida de realizar o sonho".

Não foi o que aconteceu dessa vez. Naquela segunda-feira, dia 7, deu à luz de forma natural à Marina, do jeito que escolheu. "Foi cercada de carinho".

Dois meses depois, na mesma cidade, a empresária Camila Rocha, 28, também dançou à espera do filho, João Homero. E sorriu em meio a um "vai nascer" que deixou escapar durante a coreografia. Ela se "sentiu muito acolhida e segura" no momento e estava certa de que o processo "não precisava ser tenso e sofrido".

Exemplos de técnicas usadas nos chamados "partos humanizados", as coreografias realizadas nos minutos finais de gravidez das duas brasileiras foram registradas em vídeos, postadas em redes sociais e alcançaram milhares de visualizações e compartilhamentos.

A mais recente, de Camila, foi divulgada em 10 de outubro e vista por mais de 180 mil pessoas apenas na publicação original, feita pelo ginecologista e obstetra Fernando Guedes da Cunha.

"Humanização"

Mas o que é o "parto humanizado" - conceito que está por trás daquelas coreografias?

Cunha define como "tratar com respeito a mulher - respeitando acima de tudo a autonomia dela - e agir de maneira a promover um ambiente adequado e seguro" para o parto.

Esse tratamento, porém, não é esperado apenas no parto normal. Também vale para a cesariana, procedimento que representa mais da metade dos partos realizados no país mas que só deveria ser indicado se a mãe ou o feto demonstrassem alguma "anormalidade" e precisassem de "ajuda" no processo, diz o médico João Alfredo Piffero Steibel, membro da comissão de assistência ao abortamento, parto e puerpério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

"Não existe nenhuma situação em que o parto humanizado não seja possível, pois isso significa fazer um atendimento adequado para quem está precisando", frisa.

Era esse atendimento que estava "nos sonhos" de Liz desde a primeira gravidez.

"É que não se trata só da via de nascimento, de ter o parto vaginal, mas de um conjunto. De ter um médico que te respeita, de ter a sua doula por perto, de ter apoio físico e emocional, de ter um espaço adequado", enumera.

Camila, que teve os dois filhos de parto normal, também sempre quis a "humanização".

Ela justifica: "É um momento único na vida da mulher e podendo ser em um ambiente favorável, acolhedor, com as pessoas que você ama por perto, é muito melhor".

Liz concorda e define a humanização no seu segundo parto como momento de "cura".

Liz e a filha, Marina, na maternidade: Brasileira lutou por parto humanizado, que não conseguiu na gravidez do primeiro filhoImage captionLiz e a filha, Marina, na maternidade: Brasileira lutou por parto humanizado, que não conseguiu na gravidez do primeiro filho | Crédito: Arquivo pessoal

Foi com esse sentimento, de cura, que a gaúcha dançou no dia do nascimento de Marina. Um mês antes de a filha nascer, viu um vídeo em que duas grávidas dançavam Despacito, música do cantor porto-riquenho Luis Fonsi e do rapper Daddy Yankee. Gostou da ideia e marcou na postagem o marido, o médico e sua doula.

No dia do parto, porém, diz ter sido surpreendida. "Morrendo de dor", tomou analgésico - para aliviar o quadro sem perder os movimentos - e começou a caminhar pelo hospital com o médico. Ouviu então dele: "É agora que a gente vai dançar".

A coreografia foi criada na hora. Ensaiaram na sala de parto e, depois, posicionados no corredor, se entregaram à performance filmada pela enfermeira obstétrica.

O vídeo foi postado nas redes sociais e tomou uma proporção que ela não esperava. "A dança foi um momento de descontração, depois de um processo tão cansativo, de dor. Foi um momento de acolhimento", diz Liz.

Ela executou cada passo na presença da mãe, do marido, da equipe médica e da doula. A filha nasceu cerca de 40 minutos depois em um parto que, "com ou sem dança", afirma, teria sido humanizado.

"A dança foi um plus, um momento de alegria quando a dor não estava presente. Foi um êxtase".

Para Camila, a ideia da dança partiu do médico e, apesar de não ter sido planejado, foi uma forma de "humanizar, relaxar". "O momento não precisava ser tenso e sofrido", resume.

Mãe também de Helena, de 1 ano e 2 meses, ela afirma que o primeiro parto "foi muito mais sofrido e demorado".

"Por isso, no segundo escolhi um médico que fosse adepto do parto humanizado", conta.

Camila conta que, no caso da primogênita, ficou muito tempo no hospital entre a bolsa ter estourado e o bebê nascer.

"Foram 12 horas em um ambiente não acolhedor. Dessa vez, foi apenas 1 hora e 50 minutos entre internar e o nascimento. Passou muito rápido", lembra.

João Homero nasceu 10 minutos depois de ela ter dançado Paradinha, da cantora brasileira Anitta.

Camila e o marido no parto de João HomeroDireito de imagemARQUIVO PESSOALImage captionCamila e o marido no parto de João Homero | Crédito: Arquivo pessoal

Vantagens

Steibel, da Febrasgo, explica que a dança é só mais uma técnica no caminho da humanização. "O que encurta, alivia e melhora a evolução do trabalho de parto é o movimento da gestante. A dança funcionaria como uma distração que pode propiciar descontração, interação e atenção e disso ela também precisa, porque parto dói", diz ele.

Segundo o médico, outros movimentos e exercícios são igualmente bem-vindos porque podem fazer a mulher, além de relaxar, mudar a posição favorecendo a descida do bebê. A lista inclui, por exemplo, fazer movimentos sentada em uma bola ou em um cavalo de pau, daqueles tipos para crianças, que permitem um vai e vém adequado ao momento.

O obstetra Fernando Guedes da Cunha reforça sobre as vantagens da dança: "A posição (em pé) junto com movimentos de agachamento, rotação de quadril, e elevação dos membros inferiores (pernas) favorece o processo de dilatação do colo uterino e descida do bebe na pelve".

Segundo ele, já é comprovado que fazer tais movimentos separadamente estimula um trabalho de parto mais rápido.

"Dançar simplesmente é uma forma de empregar todos esses movimentos de uma forma mais descontraída, aliviando a tensão e diminuindo o processo de dor. Fisiologicamente, temos uma diminuição de adrenalina e maior liberação e ação de oxitocina, hormônios ligados ao processo de trabalho de parto", explica.

Outras técnicas, como acupuntura, pilates, aromaterapia e cromoterapia podem ajudar a mulher a relaxar e melhorar o trabalho de parto, segundo ele.

Raquel Oliva, da Comparto, acrescenta à lista: "Massagens, banhos mornos, música ambiente, mobilidade e posicionamento, técnicas de respiração e até mesmo meditação!".

'Desafios'

Cheios de vantagens, tanto o parto humanizado quanto o parto normal ainda enfrentam, porém, dificuldades no Brasil. A lista, segundo especialistas, vai desde falta de recursos e estrutura até conscientização dos profissionais da área e de parte da população.

É justamente a falta de conscientização que ajuda a explicar, na visão de Liz, o comportamento da médica que a atendeu no dia em que nasceu Pietro, o primeiro dos dois filhos. Uma experiência que descreve como "traumatizante".

Não era para menos. A gaúcha tentava engravidar havia dois anos. Precisou fazer um tratamento hormonal e já com o sucesso do procedimento praticamente descartado pelo médico, soube que estava grávida. Passou então a se preparar "de todas as formas possíveis". Buscou informação, entrou em um grupo de apoio sobre parto, infância e amamentação, fez pré-natal e conquistou uma doula voluntária. Tudo a encaminhava para o parto normal. Mas ela não conseguiu que fosse desse jeito.

Para ter o filho, viajou da cidade onde morava para Vila Velha, onde vivia a mãe. Precisaria, dessa maneira, ser atendida pelo médico que estivesse de plantão na maternidade e, segundo conta, a profissional em serviço não foi acolhedora.

Liz com a família: Para a gaúcha, parto normal foi como uma Image captionLiz com Marina, o filho Pietro e o marido José Alejandro: Parto normal foi como uma "cura", diz | Crédito: Arquivo pessoal

"Eu tinha ido ao hospital previamente e tinha plena certeza de que seria acolhida e teria minha vontade respeitada. Mas caí no azar de pegar uma médica que não pensava da mesma forma. Ela já me recebeu dizendo que minha barriga estava grande, reclamou porque não havia ultrassom recente e disse que se eu tivesse que parir ali que fosse do jeito dela".

Liz insistia no parto normal. Mas a médica teria dito ao marido, o biólogo chileno José Alejandro, que a mulher e o filho poderiam morrer no processo. Isso o fez autorizar a cirurgia.

"Só consegui me curar emocionalmente com o nascimento da minha filha, Marina. Havia uma mágoa, um vácuo, uma coisa mal resolvida na minha vida por causa disso", diz.

'Longo caminho'

Sem comentar problemas de estrutura apontados por profissionais da área, o Ministério da Saúde afirmou à BBC Brasil que o movimento em prol da humanização do parto no país é crescente e estimulado por investidas como o programa Rede Cegonha, que o governo federal implantou na rede pública e engloba hoje 1.600 maternidades que atendem ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Um dos objetivos é incentivar o parto normal humanizado e intensificar a assistência integral à saúde de mulheres para, com isso, reduzir cada vez mais a taxa de mortalidade materna e neonatal e as ocorrências de cesarianas desnecessárias.

Só em 2015, dado oficial mais recente, foram realizados cerca de 2,9 milhões de partos no Brasil e mais da metade (55,6%) foram cesáreas.

Essa proporção caiu em relação a 2014 - quando representavam 57,1% do total - e a expectativa é que o número seja ainda mais reduzido, segundo o Ministério.

"O objetivo é incentivar o parto normal", diz.

Há, no entanto, um longo caminho pela frente.

Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública - Fiocruz aponta que a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é para que as cesarianas não excedam 15% do total de partos, "pois estudos internacionais vêm demonstrando os riscos das elevadas taxas de cesariana tanto para a saúde da mãe quanto a do bebê".

O mesmo estudo, com dados coletados entre 2011 e 2012, aponta que o índice de cesarianas alcançava 88% na rede privada brasileira.

O elevado número de cesarianas coloca o Brasil em segundo lugar no mundo em percentual deste tipo de parto.

De acordo com dados da OMS, que consideram os índices da rede pública, em primeiro lugar nesse ranking está a Republica Dominicana, onde a taxa chega a 56,4%.

O Ministério da Saúde diz que "sempre promoveu o parto normal como prioridade e que as cesarianas, sem regulamentação da pasta, eram a escolha principal das mães, mesmo quando não havia indicação clínica".

"Agora, com os protocolos e recomendações da pasta, as cesarianas são utilizadas apenas nos casos em que houver real necessidade", garante, se referindo ao lançamento de diretrizes de assistência ao parto normal no Brasil, no primeiro semestre.

Com o documento, diz o Ministério, toda mulher terá direito de definir o seu plano de parto que trará informações como local onde será realizado, orientações e benefícios do parto normal.

"Assim, o parto deixa de ser tratado como um conjunto de técnicas, e sim como um momento fundamental entre mãe e filho", alega.

Camila com o marido Romero Lopes, a filha Helena e o filho João HomeroDireito de imagemARQUIVO PESSOALImage captionCamila com o marido Romero Lopes, a filha Helena e o filho João Homero | Crédito: Arquivo pessoal

Para Oliva, da Comparto, ainda há, no entanto, uma "cultura popular brasileira de que cesárea é mais segura" e isso emperra o avanço do movimento em prol da humanização.

"Essa cultura inclui, por exemplo, o medo das mulheres, a conveniência dos médicos, os interesses das instituições de saúde, a ideia de status relacionada ao acesso à cesárea eletiva, a má formação médica, a falta de parteiras...", acrescenta ela, que já acompanhou mais de 300 partos na função de doula, profissional que oferece apoio físico e emocional à mulher e sua família antes, durante e após o nascimento do bebê.

Na visão da especialista, "ao mesmo tempo em que cresce a busca pela humanização, não cresce na mesma velocidade a oferta deste modelo de assistência (no país)".

"O movimento", diz ela, "ganha adeptos exponencialmente, mas ainda há muito preconceito e confusão de conceitos".

Também falta estrutura.

Segundo Cunha, obstetra que dançou com Liz e Camila, os médicos da rede pública trabalham acima da capacidade e isso prejudica o atendimento.

Chega-se a realizar entre 10 e 15 partos em 12 horas, com equipes reduzidas e a missão de atender, ainda, todas as grávidas que chegam para consultas, afirma.

Raquel Oliva, da Comparto: Parto normal e humanizado é cheio de vantagens, mas ainda não está disseminado no BrasilDireito de imagemCEDIDAImage captionRaquel Oliva, da Comparto: Parto normal e humanizado é cheio de vantagens, mas ainda não está disseminado no Brasil

Raquel Oliva, da Comparto, concorda com as dificuldades descritas pelo médico, também vistas na rede privada: "A maioria das equipes humanizadas é totalmente particular. Pelos convênios de saúde é quase impossível encontrar equipes coerentes com esse modelo e no SUS são poucas as referências de humanização".

Ela cita o Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (ISEA), em Campina Grande, na Paraíba, e o Hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte, em Minas Gerais.

E acrescenta: "Há cada vez mais políticas públicas pela adequação da assistência, mas ainda temos um longo caminho a percorrer até que essa seja uma opção para todas as mulheres".

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Por que a leishmaniose avança no sul do Brasil e o que os cães têm a ver com isso

Porto Alegre e Florianópolis registraram casos de leishmaniose visceral humana pela primeira vez na história. Por trás do avanço da doença, cuja prevenção pode envolver a eutanásia de cães, estão questões de vulnerabilidade social, migração, mudanças climáticas e até de ocupação irregular de áreas de mata.

Caracterizada por sintomas pouco específicos, como febre de longa duração e perda de peso, a leishmaniose visceral nem era considerada nos protocolos de saúde do sul do Brasil, tanto que os primeiros casos em Porto Alegre começaram a ser tratados como suspeitos de leucemia.

A doença é causada por protozoários do gênero Leishmania, transmitidos por mosquitos. Em estágio mais avançado, a doença causa inchaço do fígado e do baço, comprometendo o correto funcionamento do sistema hematológico, e pode atingir também a medula óssea.

Se não tratada, a leishmaniose pode levar à morte em 90% dos casos, segundo o Ministério da Saúde.

A primeira morte na capital gaúcha foi registrada em setembro de 2016. Nos meses seguintes, foram detectados quatro novos casos em Porto Alegre. Três pessoas morreram. Em agosto passado, Florianópolis registrou a primeira contaminação humana. Atualmente, dois pacientes são monitorados na capital catarinense.

O que chama atenção é que não foi identificado na região o vetor tradicional de transmissão presente nas demais áreas urbanas do país, o mosquito-palha (Lutzomyia longipalpis). Por isso, os cientistas acreditam que o inseto responsável pela transmissão da doença no sul é de hábitos silvestres, presente em regiões de mata.

Uma pesquisa do Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tenta identificar exatamente quais espécies de mosquitos estão envolvidas na transmissão da doença em Florianópolis.

"A espécie que atua como vetor na região sul é de baixa resistência em áreas urbanas, por isso acreditamos que há um potencial menor de transmissão", diz o coordenador substituto de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Francisco de Lima Júnior.

Segundo Mariana Teixeira, doutora em Ciências Veterinárias com ênfase em Parasitologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a expansão desordenada das cidades, assim como mudanças climáticas também podem estar relacionadas ao aparecimento da doença nas regiões metropolitanas gaúcha e catarinense.

"O vetor silvestre da leishmaniose se adapta à zona urbana à medida que as cidades avançam para a mata. Além disso, uma das proteções que a região sul tinha contra a expansão do mosquito era o inverno, e ultimamente as estações do ano já não são mais tão bem definidas", explica.

Intermediários

Para os pesquisadores, a transmissão do protozoário pelo mosquito silvestre, ainda menos adaptado às áreas urbanas, explicaria a expansão lenta da leishmaniose para humanos na região.

Mas casos em animais domésticos já ocorrem desde 2008 - os primeiros foram registrados em São Borja, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Por isso, quem tem cães em casa está sendo orientado a examiná-los para detectar protozoário leishmania infantum e, em caso positivo após dois testes, a eutanásia é recomendada.

A orientação segue protocolos do Ministério da Saúde e da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), mas levanta polêmica.

Em Porto Alegre, uma decisão judicial obrigou a prefeitura a suspender a eutanásia de 12 cães, após protestos de ativistas.

Pela convivência no ambiente doméstico, os cães são vistos como intermediários importantes da transmissão da leishmaniose visceral para humanos: o mosquito pica um animal contaminado e passa adiante o protozoário causador da doença ao picar outro animal ou uma pessoa.

"O fluxo migratório urbano favorece a dispersão geográfica da doença, pois as pessoas transportam seus cães de áreas endêmicas para outras áreas, muitas vezes sem saber que o animal está contaminado", aponta Lima Júnior.

Perda de peso, aparecimento de feridas ou descamações de pele, queda anormal de pelos, inchaço das pernas e sangramento do nariz são efeitos da leishmaniose visceral em cachorros. No entanto, a doença pode ser assintomática em muitos casos.

Mesmo que o cão não apresente os sintomas típicos da leishmaniose, ele pode ser um intermediário da transmissão apenas pela presença do protozoário no organismo.

Parasita da leishmaniose em tecido subcutâneoDireito de imagemCDCImage captionParasita que causa leishmaniose visceral ataca órgãos como fígado, baço e medula óssea

Áreas vulneráveis

Segundo Cíntia Petroscky, bióloga do Centro de Controle de Zoonoses de Florianópolis, já havia registros de leishmaniose visceral canina na cidade desde 2010.

De lá para cá, mais de 11 mil cães foram testados, sendo quase 400 positivos.

Os primeiros casos de contaminação em cães foram identificados no entorno da Lagoa da Conceição, área de grande circulação turística, que mescla residências de alto padrão com moradias simples, onde a população mais pobre vive em condições precárias de saneamento e higiene.

Diferentemente do mosquito Aedes egypti, vetor da dengue, que se reproduz em água limpa, o mosquito que transmite a leishmaniose prefere ambientes úmidos com farto material orgânico.

No caso de Porto Alegre, todas as vítimas da leishmaniose visceral humana residiam no Morro Santana, área de mata que vem sendo ocupada de maneira irregular nos últimos anos.

São da mesma área os 12 cães contaminados, que foram recolhidos pela prefeitura e passariam por eutanásia. Os animais seguem isolados em um canil municipal.

Em Florianópolis, os responsáveis por cães doentes que não queiram seguir a recomendação da eutanásia devem assinar um termo de responsabilidade.

De acordo com Fábio Indá, membro da Comissão de Saúde Pública do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Santa Catarina, o termo foi criado como instrumento de segurança, pois o proprietário do animal deve assumir os riscos de manter um cão contaminado em casa.

"É uma questão cultural que envolve uma relação afetiva delicada, porque hoje o cachorro é um membro da família, mas no caso da leishmaniose há um risco coletivo que não pode ser ignorado", assinala o veterinário, mestre em Biotecnologia pela UFSC.

Mosquito transmissor da leishmanioseDireito de imagemCDCImage captionMosquito-palha costuma ser o transmissor do protozoário da leishmaniose em áreas urbanas

Alternativas

Há apenas um medicamento liberado pelo Ministério da Agricultura para o tratamento da leishmaniose visceral canina, porém ele não é considerado 100% eficaz.

Embora reduza os sintomas no cão, o medicamento não elimina totalmente o protozoário, de forma que o animal continua sendo um repositório da doença.

"Para cães particulares, o uso do medicamento é uma opção, desde que associado a outras medidas, como usar coleiras repelentes e manter o cachorro segregado de áreas de mata", destaca Anderson de Lima, diretor da Coordenadoria-geral de Vigilância em Saúde de Porto Alegre.

Como medida de saúde pública, no entanto, Lima considera o medicamento inviável devido ao alto custo, que pode passar de R$ 2 mil por ciclo de aplicação - o medicamento exige reforço a cada quatro meses - e ainda seria necessário acompanhamento periódico de um médico veterinário para monitorar os níveis de carga parasitária no organismo.

O Ministério da Saúde está conduzindo pesquisas para avaliar a relação custo-efetividade do uso de coleiras repelentes como medida de controle.

A vacina preventiva, que pode ser aplicada somente em cães saudáveis, não entrou nas políticas do governo porque os estudos de eficácia foram considerados insuficientes.

A primeira vacina é aplicada em três doses, depois são necessários reforços anuais de aplicação única.

Como evitar a contaminação

Apesar de ser grave, a leishmaniose visceral em humanos tem tratamento com medicação, mas não vacina.

O combate à doença passa pelo controle da proliferação do mosquito. A limpeza de material orgânico de jardins e a destinação correta do lixo são fundamentais. O uso de inseticidas e repelentes, bem como de telas milimetradas em portas e janelas também são recomendados.

Para a bióloga Cíntia Petroscky, o caso da leishmaniose é similar ao da dengue, da zika e da chikungunya, que teriam seu risco significativamente reduzido com medidas básicas de higiene e melhores condições de saneamento.

"Essas são chamadas doenças negligenciadas pela Organização Mundial da Saúde. A leishmaniose é negligenciada mesmo, porque quase nem se fala sobre ela", conclui.

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Como americanas resgatadas sobreviveram 5 meses à deriva no Pacífico

Após passarem aproximadamente cinco meses à deriva, duas velejadoras americanas e seus dois cachorros foram resgatados pela Marinha dos Estados Unidos, no Oceano Pacífico.

Jennifer Appel e Tasha Fuiaba partiram do Havaí para o Taiti em um pequeno barco à vela, mas durante a viagem o motor foi afetado pelo mau tempo e acabou falhando.

A embarcação ficou, então, flutuando no mar cerca de 1.500 km a sudeste do Japão.

Elas foram resgatadas após uma embarcação pesqueira alertar autoridades americanas.

A Marinha informou, por meio de um comunicado, que a dupla achou inicialmente que poderia alcançar terra firme contando com vento e velas.

"Mas dois meses depois de iniciada sua jornada, quando originalmente estimaram que chegariam ao Taiti, elas começaram a fazer chamadas de socorro", acrescentou o comunicado.

Segundo a Marinha americana, as mulheres continuaram emitindo pedidos de socorro diários, mas seus sinais não eram captados porque elas não estavam perto o suficiente de outros veleiros ou de estações em terra.

Duas velejadoras americanas resgatadas pela Marinha dos Estados Unidos após cerca de cinco meses no marDireito de imagemEPAImage captionMulheres e seus cachorros começaram a viagem do Havaí para Taiti em maioJennifer Appel é recebida à bordo no USS Ashland pelo comandante chefe Gary WiseDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionJennifer Appel é recebida à bordo no USS Ashland pelo comandante chefe Gary Wise

Mas, em 24 de outubro, um navio de pesca de Taiwan viu o barco balançando no oceano e informou às autoridades no território americano de Guam, no Pacífico.

O barco da Marinha dos EUA, o USS Ashland, estava na área e chegou no dia seguinte para resgatar as velejadoras - ambas de Honolulu - e seus cachorros.

"Eles salvaram nossas vidas", disse Appel, acrescentando: "O orgulho e os sorrisos que demos ao vê-los (a Marinha dos Estados Unidos) no horizonte foi puro alívio".

A tripulação à deriva conseguiu sobreviver a esse período graças a um purificador de água e a uma grande quantidade de alimentos secos, como aveia e macarrão.

O USS Ashland chegou para dar suporte às velejadores um dia após alerta emitido por navio de pesca
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Sete vezes em que 'estratégias' de alvos da Lava Jato deram errado

O ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral será transferido nos próximos dias à Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), por solicitação do Ministério Público Federal (MPF), após uma troca de farpas em audiência com o juiz Marcelo Bretas, responsável pelos julgamentos da operação Lava Jato no Rio.

Foi um dos casos recentes em que acusados na Lava Jato apostaram em iniciativas malsucedidas perante a Justiça ou as investigações.

Na audiência, na última segunda-feira, Cabral - que nega as acusações de ter chefiado um esquema milionário de corrupção no governo do Rio - rebatia a denúncia de que teria comprado joias para sua mulher com dinheiro de propina.

Argumentando que joias seriam um modo inusual de lavar dinheiro, ele disse a Bretas que "vossa Excelência tem um relativo conhecimento sobre o assunto e sua família mexe com bijuterias, se não me engano é a maior empresa de bijuterias do Estado. (...) São as informações que me chegaram".

Cabral também acusou Bretas de usar o caso "para gerar uma projeção pessoal, me fazendo um calvário, claramente".

A fala foi enxergada por críticos como uma tentativa de intimidação de Bretas.

"(A declaração de Cabral) pode ser entendida de alguma forma como ameaça", declarou o juiz. O ex-governador negou em seguida: "Ameaça? Eu estou preso".

Joesley BatistaDireito de imagemREUTERSImage captionÁudio colocou em dúvida delação e imunidade de Joesley Batista

Em seu pedido pela transferência de Cabral, o MPF afirmou que as declarações do ex-governador tentavam "constranger a autoridade judiciária federal" e demonstraram que na cadeia "ele recebe informações inclusive da família desse magistrado, o que denota que a prisão no Rio não tem sido suficiente para afastar o réu de situações que possam impactar nesse processo".

A defesa de Cabral negou qualquer tentativa de intimidação e afirmou que a fala do ex-governador foi um "desabafo".

A seguir, veja outros seis casos em que aparentes estratégias de personagens ligados a Lava Jato deram errado:

Delação da JBS

Um dos maiores acordos de delação premiada da Lava Jato havia dado imunidade aos irmãos Joesley e Wesley Batista, livrando-os de punição por crimes de corrupção em troca de provas contra políticos.

E disso saíram áudios bombásticos, como as gravações envolvendo o presidente Michel Temer e o senador tucano Aécio Neves.

No entanto, a imunidade dos irmãos Batista ficou a perigo depois que vieram à tona os áudios de Joesley conversando com o lobista da JBS Ricardo Saud.

As conversas geraram a suspeita de omissão de crimes por parte dos ex-executivos da empresa - o que contrariaria as normas do acordo de delação premiada - e de supostos elos com o ex-procurador da República Marcello Miller, que chegou a atuar tanto nas investigações da Lava Jato quanto no escritório de advocacia que defendeu a JBS.

Como resultado, Joesley e Saud acabaram presos, e Wesley foi detido depois por suspeitas de crime contra o sistema financeiro, em meio às investigações de compra e venda de ações e atuação no mercado de dólar após a delação da JBS ter causado uma turbulência no mundo das finanças - os empresários são acusados de se aproveitar das informações privilegiadas que tinham sobre a eclosão do escândalo para ganhar dinheiro.

Geddel Vieira LimaImage captionGeddel foi acusado de tentar atrapalhar investigação de supostas fraudes na Caixa | Foto: Ag. Brasil

Geddel Vieira Lima

O ex-ministro chegou a ser preso preventivamente em julho, acusado de tentar atrapalhar as investigações da operação Cui Bono, em que a Polícia Federal apura supostas fraudes em créditos da Caixa Econômica Federal (CEF).

Segundo o MPF, Geddel, que havia sido vice-presidente da CEF entre 2011 e 2013, teria agido para impedir o ex-deputado Eduardo Cunha e o doleiro Lucio Funaro (ambos presos) de acordar delações premiadas, oferecendo-lhes supostas vantagens indevidas. As investigações apontam várias ligações dele para a mulher de Funaro.

A defesa de Geddel afirmou que a prisão foi "desnecessária", negando as acusações. Depois de alguns dias preso, ele passou para prisão domiciliar.

Em depoimento à Justiça, chegou a chorar ao falar de sua família e da prisão.

"Farei 20 anos de casado, (com) três filhos, uma menina de 18 anos, uma menina de 14 e meu menino de 7. Evidentemente minha esposa não tem trabalho e todos precisam de mim para seu sustento financeiro e emocional", disse, com olhos marejados.

Geddel acabou sendo preso novamente na operação, após a PF ter descoberto um apartamento com R$ 51 milhões em dinheiro vivo em Salvador, vinculado ao ex-ministro.

Marcelo Odebrecht

Um bilhete escrito por Marcelo Odebrecht na prisão em 2015 foi interceptado pela PF, com os dizeres "destruir e-mail sondas".

O empresário Marcelo OdebrechtDireito de imagemAFPImage captionBilhete de Marcelo Odebrecht foi interpretado como tentativa de obstrução

O bilhete, que tinha como destino final os advogados do ex-executivo da Odebrecht, foi então considerado pelo juiz Sergio Moro como uma tentativa de destruição de provas da participação da empreiteira na formação de cartel para fraudar contratos com a Petrobras.

Seria uma referência a sobrepreços em um contrato de sondas com a estatal.

A defesa de Odebrecht negou, dizendo na época que o bilhete fora "maliciosamente" interpretado como prova de crime e que "não continha o mais remoto comando para que as provas fossem destruídas e que - à toda evidência - a palavra fora empregada no sentido de desconstruir, rebater a interpretação equivocada feita sobre o conteúdo do e-mail".

O empresário, que depois fechou acordo de delação premiada, segue detido.

Delcídio do Amaral

Foi a primeira vez que um senador cumprindo mandato foi preso em flagrante: Delcídio do Amaral, então líder do governo de Dilma Rousseff no Senado, foi detido por ordem do Supremo Tribunal Federal acusado de tentar obstruir as investigações da Lava Jato.

O ex-senador Delcídio do AmaralImage captionDelcidio foi flagrado tentando impedir delação de Cerveró | Foto: Ag. Senado

A prisão foi baseada em uma gravação em que Delcídio oferecia ajuda financeira a familiares do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, em uma tentativa de impedi-lo de fazer um acordo de delação premiada com a Justiça.

Delcídio acabou tendo seu mandato cassado no ano seguinte e acabou, ele mesmo, se tornando um delator do esquema de corrupção na Petrobras.

Eduardo Cunha

Ainda como presidente afastado da Câmara de Deputados, em 2016, Cunha foi acusado por adversários de tentar retardar o processo contra ele no Conselho de Ética da Casa e nas investigações da Lava Jato.

O então presidente do Conselho, deputado José Carlos Araújo, chegou a entregar ao então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, uma lista do que chamou de "manobras" de Cunha para atrasar o andamento do pedido para que ele perdesse o cargo - que acabou sendo o processo mais longo da história da Câmara.

Eduardo CunhaImage captionEduardo Cunha acabou condenado na Lava Jato | Foto: Ag. Brasil

Cunha, porém, acabou tendo o mandato cassado em setembro de 2016, perdendo o foro privilegiado. Preso pouco tempo depois, em março deste ano, foi condenado pelo juiz Sergio Moro a 15 anos e quatro meses de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Tentativas suas de fechar um acordo de delação premiada, segundo a imprensa, acabaram frustradas.

Eike Batista

Em 2016, um depoimento espontâneo dado pelo empresário Eike Batista à força-tarefa da Lava Jato - em que fazia acusações ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega - foi interpretado como uma tentativa de fechar um acordo de delação e obter imunidade nas investigações.

No entanto, isso não ocorreu, e Eike acabou preso, em janeiro deste ano, acusado de pagamentos de propina ao governo de Sergio Cabral no Rio. Em abril, foi colocado em prisão domiciliar.

Relatos na imprensa dão conta de que Eike ainda tenta negociar um acordo de delação premiada, o que não é confirmado por sua defesa.

Eike BatistaDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionEike Batista implicou ex-ministro Mantega

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'Creme para embranquecer pele' coloca Nivea no centro de polêmica em países da África

A polêmica sobre o uso de cremes embranquecedores agora atingiu uma marca de cosméticos de alcance global.

A Nivea está sendo criticada por uma propaganda de um produto anunciado na Nigéria, em Gana, em Camarões e no Senegal.

Outdoors apresentam o hidrante "Natural Fairness" (clareza natural) com a ex-miss Nigéria, Omowunmi Akinnifesi, com os dizeres "para uma pele visivelmente mais clara".

A mesma campanha tem comerciais para a TV, que mostram a modelo ficando com a pele mais clara após passar o creme.

TwitterImage captionMulheres criticaram a nova propaganda da Nivea, dizendo que 'não querem pele mais clara' | Foto: Reprodução/Twitter

O anúncio foi duramente criticado nas redes sociais, com mulheres dizendo que "esse não é o jeito certo de fazer propaganda na África" e "não queremos pele mais clara".

Entre os críticos da propaganda da Nivea está a modelo e ativista Munroe Bergdorf - que recentemente foi demitida de uma campanha da L'Oreal depois de criticar o racismo nos EUA.

Munroe compartilhou a propaganda em seu Instagram e disse que "não é ok perpetuar a noção de que pele mais clara é mais bonita" e que "é inaceitável fazer dinheiro fazendo com que outras pessoas odeiem a si mesmas".

Munroe também afirma que cremes branqueadores são prejudiciais à saúde e errados do ponto de vista ético.

"Todas as peles negras são bonitas. Nos homenageiem em vez de pedir que aceitemos ideais racistas e inatingíveis."

À flor da pele

O produto da Nivea não é novo, mas a recente estratégia de divulgação gerou polêmica alguns dias depois da Dove ser criticada por um anúncio em que diversas modelos se transformavam em mulheres de outras etnias.

A imagem de um trecho da propaganda, com a negra se transformando em uma branca, gerou críticas. A Dove pediu desculpas, mas Lola Ogunyemi - modelo retratada - disse depois que a propaganda não era racista, que ela "não era uma vítima" e que o trecho foi tirado de contexto.

Mulher passando cremeDireito de imagemGETTY IMAGESImage captionO produto anunciado é um dos diversos disponíveis no mercado

A Nivea já havia sido criticada no início do ano por uma propaganda de desodorante no Oriente Médio em que se via escrito "branco é pureza".

A Beiersdorf, empresa dona da marca, emitiu um comunicado dizendo que reconhece as preocupações levantadas e que a intenção nunca foi ofender os consumidores.

"A Beiersdorf é uma empresa global, que oferece uma grande variedade de produtos que têm como finalidade abordar as diferentes necessidades de cada tipo de pele dos seus consumidores ao redor do mundo. Tendo conhecimento do direito de cada consumidor em escolher um produto de acordo com sua preferência, a empresa oferece diversas alternativas de produtos de alta qualidade para cuidados com a pele", afirma.

Além da superfície

O uso de cremes branqueadores é uma polêmica antiga no continente. Um estudo da Universidade de Cidade do Cabo estima que uma em cada três mulheres clareie a pele na África do Sul. Uma pesquisa da OMS (Organização Mundial de Saúde) aponta que 77% das nigerianas usam esse tipo de produto regularmente.

Dermatologistas sul-africanos apontam que clareadores podem gerar efeitos colaterais que incluem câncer e hiperpigmentação da pele. "Precisamos educar mais as pessoas sobre os perigos desse tipo de produto", diz Lester Davids, da Universidade de Cidade do Cabo.

Já usuárias de cremes clareadores, como a musicista Nomasonto "Mshoza" Mnisi, defendem os produtos. "É uma questão de autoestima. Estou feliz agora", afirma.

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