A forma republicana de governo foi instaurada no Brasil na noite de 14 para 15 de novembro de 1889, por uma quartelada, à revelia do povo e marcando o início de uma ditadura militar que somente entregaria o poder às instituições civis depois de um decênio. Após as marchas e contramarchas, sequelas, querelas, mandos e desmandos que caracterizaram os períodos de Deodoro e Floriano, eleições populares levaram o paulista Prudente José de Morais Barros à curul presidencial. Iniciava-se, então, o ciclo do famoso café com leite, onde Minas Gerais e São Paulo alternavam-se no poder de uma república nascida nos bicos dos fuzis e canhões sublevados do mesmo exército que tinha o dever de garantir as instituições imperiais, uma época marcada pelos conchavos eleitoreiros, o legendário voto de cabresto e o favorecimento das elites cafeeiras. E assim, como um soldado que se une ao pelotão quando este já está em marcha e não consegue sintonizar seu passo com os demais, a chamada República Velha capengou na marcha da história até os finais das três primeiras décadas do Século XX.
Washington Luiz Pereira de Souza herdara um barril de pólvora, cuja carga lentamente armazenada desde o assalto de Deodoro ao poder, completara-se no tumultuado quatriênio anterior de Bernardes. Deposto Washington, entraria em cena Getúlio Dornelles Vargas na chefia dos outubristas de 1930. Novo regime de exceção com o nome de Governo Provisório teria início, desta vez tendo como mandatário supremo o advogado gaúcho Getúlio Dornelles Vargas, um “caudilho dos pampas” na definição de seus desafetos políticos.
A constituinte anunciada por esse Governo Provisório logo após a vitória dos outubristas, não passaria de simples promessa e a repressão acentuava-se. O período compreendido entre os anos de 1930 e 1932 constituiu-se em simples prazo para que o pavio do TNT político fosse rapidamente consumido, e chegar a uma inevitável e fatal explosão armada que marcou o legendário 9 de julho de 1932. O general Bertholdo Klinger sublevara-se com o seu batalhão em Mato Grosso e seguira para São Paulo onde suas tropas se juntariam àquelas comandadas por Izidoro Dias Lopes e pelo coronel Euclides Figueiredo. Era a histórica Revolução Constitucionalista que lutaria contra as tropas federais objetivando a restauração da democracia no país e a instalação da constituinte prometida pelos outubristas de 1930. A imprensa governista da época daria àquele movimento apenas um caráter separatista e cujo objetivo era transformar o Estado de São Paulo em mais uma dessas republiquetas sul-americanas desgarradas da federação brasileira. Todavia, 81 anos após a derrota de suas tropas pelo exército federal, os constitucionalistas são reverenciados em toda a terra bandeirante a cada 9 de julho. Perpetuaram-se na história pátria como símbolo máximo da democracia brasileira, posto que a história jamais conseguiu estabelecer a verdade. E ao cabo de sete décadas, oposição e situação ainda se digladiam na voz dos raros protagonistas da Revolução Constitucionalista ainda vivos.
Claro está que o episódio foi uma guerra fratricida onde o sangue alvissareiro da juventude brasileira de então verteu copioso. Não estavam em jogo interesses máximos da pátria, mas o indestrutível e notório costume de rasgar constituições que caracteriza toda a história republicana brasileira. Assim se fez com a efêmera Carta de 1934, quando a ditadura do Estado Novo nasceu na calada da noite de 9 para 10 de novembro de 1937. Assim se fez com a Carta de 1946, quando o presidente João Belchior Marques Goulart foi alijado do poder na noite de 30 para 31 de março de 1964, iniciando-se um regime de exceção que se estenderia pelas três décadas seguintes.
Estamos vivendo tempos democráticos, assim o proclamam as atuais instituições. Mas, se a história é mestra da vida…


