Beco que cantei num dístico/ Cheio de elipses mentais, /Beco das minhas tristezas, Das minhas perplexidades/ (Mas também dos meus amores, Dos meus beijos, dos meus sonhos/ Adeus para nunca mais!
(Manuel Bandeira, Última Canção do Beco)
Era uma casa pequena, concentrando a harmonia em poucos e bem ajeitados cômodos. O aconchego se estampava na entrada, onde se destacava o cheiro de flor. E que depois se misturava ao aroma do café tradicional, mineiro, espargindo pela vizinhança muita e aproximada. Uma casa cheia de livros, ideias, bom repouso.
Mas agora a casa está vazia, olhando para si mesma. Não tem vida, perdeu a alma, o sentido. Um sopro varreu seus segredos para lugar ignorado. As paredes, se algo ouviram, fizeram-se moucas, inúteis testemunhas.
A casa vazia assusta, fica grande, é espaço somente. Antes, era encanto e desejo. Agora, solidão e incerteza. Sem referência, sem dono, vagueia como que abandonada no meio da viagem da vida. A não ser que outra história comece, tende a ruir, pois o vazio, diferente do que se pensa, faz mal: o vazio é letal.
A mudança deixa vazios em busca outros mundos. A mudança procura ser mais para ter mais, ou ter mais para ser mais, ou uma hipótese apenas. Passar de um lado para outro pode ser ascender, elevar-se, ou simplesmente fugir de algo que já não mais responde aos anseios da alma. Ou será que a vida não cabe mais num velho aposento, e então se busca o espaço total, o sem limites, o sem fim, o vôo livre? Salto calculado ou não, a vida vem em ondas, sucessivas ondas, e há um instante em que a gente se percebe encorpado, as roupas incomodam, os discos, os livros, os compromissos, os amigos e tudo o mais. Dá-se a chacoalhada e os horizontes se abrem para novas escolhas.
O que fica para trás, não fica: o espaço outrora ocupado segue conosco, invisível, “suspenso no ar”, ocupando uma área em definitivo: a recordação. Ficam as lembranças cutucando, às vezes forte, às vezes suave, arranhando ou acariciando. Invadem os sonhos, com uma claridade tanta, que pedem para voltar, que seja só para olhar de longe. O instante não é efêmero, não se derrete, gruda num espaço imaginário, revive na saudade ou na melancolia.
A mudança é real e ao mesmo tempo deixa uma permanência na forma mudada. O que foi ainda é, mas não do mesmo jeito. O novo é o que desafia. O “adeus para nunca mais” é traiçoeiro e fere, porque o corpo vai, mas a alma fica, ainda que contrariada.
A casa vazia não está vazia: dentro dela moram existências evadidas, minimizadas, microprocessadas no macro mundo que não se vê e não se compreende, porque não se prende, nem se apreende.


