Ergue-se, na entrada do porto de Nova York, em Liberty Sland, o símbolo máximo dos Estados Unidos da América: A Liberdade Ilumina o Mundo ou, como ficou popularmente conhecida, a Estátua da Liberdade. No hemisfério latino do continente americano, poucos se dão ao trabalho de conhecer a história desse símbolo, já que temos outros conceitos da liberdade, um bem humano só avaliado quando perdido. E a grande potência do Norte, hoje criticada por suas incursões e ingerências na liberdade soberana de todas as nações do mundo, conserva, na orla marítima de sua principal metrópole, um monumento à liberdade.
Reparos e manutenções aplicados recentemente à estrutura do monumento, tanto para resguardá-lo de um novo 11 de setembro como para dar maior brilho às comemorações do 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos da América, trazem à tona as lembranças dos movimentos libertários daquelas últimas décadas do Século XVIII, os quais marcaram o fim da Idade Moderna para abrir ao mundo as portas da Era Contemporânea. E essa transposição de Eras teve como ponto culminante a liberdade dos povos perpetuada naquele monumento. Sabe-se que o escultor e político francês Frédéric Auguste Bartholdi visitou os Estados Unidos em 1871 e voltou à sua pátria imbuído da idéia de prestar um reconhecimento àquele país anglo-saxão, recém instalado no extremo norte das Américas, pela sua ajuda às causas libertárias da França promotora do movimento máximo desse anseio humano de liberdade, materializado, um século antes, pela derrubada sangrenta da monarquia absolutista dos Luízes. E esse reconhecimento inspirava-se na memória de todos os construtores norte-americanos do mundo contemporâneo, mormente um Thomas Jefferson e um Benjamin Franklim ou um James Monroe.
Arrecadados os fundos entre os cidadãos franceses, elaborou-se, em cobre, a colossal estátua, na figura de uma mulher, cujo rosto diz-se inspirado no semblante da mãe de Bartholdi. Depois entrou em cena o trabalho divino de Gustav Eiffel, então renomado engenheiro civil, construtor do símbolo de Paris e da França caracterizado pela torre que leva o seu nome. Eiffel encarregou-se de idealizar a estrutura metálica onde se apoiaria a parte escultural do monumento. Após árduos trabalhos de transporte, o símbolo da liberdade encontrou seu lugar definitivo em gigantesco pedestal erguido no centro da Baía de Manhatan e, inaugurado em 1886, daria aos Estados Unidos da América, em definitivo, o cetro de país libertário e democrático por excelência.
E foi a 11 de novembro de 1887, poucos meses após a suntuosa inauguração de Lady Liberty, apelido carinhoso dado pelos norte-americanos à Estátua da Liberdade, que cinco líderes trabalhistas foram executados sob a égide de sua tocha fulgurante, após promoverem uma greve geral no dia 1º de maio de 1886, ano dessa inauguração. O movimento grevista visava o fim das condições sub-humanas em que viviam os trabalhadores norte-americanos naquela época. Alguns anos após, em 1947, o governador do Estado de Illinois reconheceu a falsidade das provas contra os mártires de Chicago, anulou o processo condenatório e libertou os líderes que, presos, não chegaram à pena de morte em 1887. Mas, nesse ano de 1947 seis lápides no cemitério local guardando os corpos de cinco executados e de um suicida, eram um protesto mudo contra a tirania irreversível que se desenvolvera sob a tocha de Lady Liberty e que trazia ainda em seu pedestal a seguinte inscrição: “Venham a mim as massas exaustas, pobres e confusas ansiando por respirar liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade. Eu os guio com a minha tocha”. Essa inscrição desapareceu misteriosamente do pedestal nas décadas seguintes, quem sabe, por vergonha da consciência norte-americana.
Entretanto, essa vergonha de consciência parece uma quimera histórica como a também monumental frase de James Monroe: “América for the americans” (América para os americanos). Essa vergonha histórica teria levado Monroe a não dizer toda a frase que tinha na consciência: “América for the Americans of the North” (América para os americanos do norte). Tudo fica ainda mais confuso quando veremos, nos finais do Século XX e neste início do Século XXI, quase todos os governos ianques que atuaram sob a tocha de Lady Liberty financiando sangrentas ditaduras militares na pobre América Latina; promovendo um embargo econômico cruel e já anacrônico à nação cubana; incrementando guerras fratricidas no Oriente Médio; mantendo serviços de espionagem às informações legalmente sigilosas de governos constituídos no mundo inteiro, antes por agentes da CIA infiltrados nos países e mais recentemente pelo moderno recurso eletrônico da Internet. Então, qual o conceito de liberdade aquela tocha da “senhora liberdade” estaria iluminando há mais de um século?
JOSÉ CAMILO FILHO
Da Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova


