Uma rede de galerias de luxo entrelaçadas, formando labirintos, sob severa vigilância
SHOPPING, é uma expressão da língua inglesa, entre outras, adotada no Brasil para definir mais amplamente aquilo que antigamente chamávamos grotescamente de GALERIA. São empreendimentos gigantescos ancorados geralmente por um Hiper-mercado e/ou magazines e ocupam no mínimo uma área entre 40 a 200.000 ms2 ou mais, e geralmente provocam uma valorização enorme na região onde são construídos. E aqui no Brasil, obviamente, tendo um nome em Inglês, fica ainda mais “VIP”.
Depois dos condomínios fechados, é o local onde o comercio dos ricos e para os ricos, se entrincheirou.
Triste admitir, mas é verdade, vivemos em dois mundos distintos onde classes sociais não se misturam como no tempo dos senhores feudais que fincavam suas muralhas em castelos, cercados com fossos e crocodilos e pontes suspensas para que os saques dos súditos (os arrastões de hoje) e/ou dos excluídos se tornem impossíveis com o reforço da segurança particular. Os súditos (a plebe) entram sim, ou para passear nos domingos e feriados ou para trabalhar.
Geralmente nesses ambientes, seja o grande e de luxo (onde quero morar-rssss) ou nos pequenos boxes compactados pela falta de espaço, os comerciantes valorizam o status da presença com placas e nomes sofisticados e trabalham para pagar aluguéis, e altíssimas taxas de condomínio, verbas de publicidade e participações sobre vendas, além dos impostos que não podem sonegar, pois se sonegarem ali, estarão deixando de pagar os pesados “dízimos” estruturais próprios daquele ambiente de luxo ou de conveniência espremida com segurança máxima.
Portanto, uma vez lá dentro, ou vende muito e muito bem, ou cai fora, com complexo de inferioridade, ou falido.
E pasmem, apesar de todos os altíssimos custos, ainda há espaço para os “franshisings” (ou franquias em bom português) , onde pagamos royalties para os inteligentes que conseguem expandir seus negócios, alugando um nome. A diferença é que nesse ambiente você se alimenta com um hambúrguer do Mc Donalds e no camelódromo você come um sandwiche de pão Frances, sem qualquer valor agregado. rsss
Era uma tarde de domingo e eu ainda não havia almoçado. Nada pra fazer, tomei o café da manhã muito tarde, depois de ler o jornal, almoçar no horário convencional pra que?
Ninguém disponível para um jogo de sinuca improvisado ou para um jogo de canastra, um daqueles domingos sem nada programado, sem nada pra fazer de muito importante, saímos todos para assistir um filme no melhor Shopping de Goiânia. Uma vez lá, depois de visitar a praça de alimentação, claro, e então passei a observar meticulosamente tudo que meus olhos alcançavam e já não me lembrava mais daquele chuveiro estourado do quarto da minha filha que acabara me esquecendo de consertar, ou daquela lâmpada queimada pra trocar.
É incrível, mas parece que nada mudou no tempo, ou em milhares de anos, quando se entra num ambiente desses, de luxo, repleto de profissionais especializados em gentilezas, estacionamento seguro sem flanelinhas, sem qualquer pessoa para aborrecer querendo vender bugigangas ou insistindo pra você aceitar panfletos. Na verdade você entra como se estivesse num castelo inexpugnável daqueles que citei, só que ao invés de crocodilos e pontes suspensas eles usam câmeras de segurança, gorilas bem armados e com rádios comunicadores. Eles se postam enfileirados de terno preto e gravata e se comunicando parecem muito com aqueles guardas de antigamente com espadas e armaduras, fazendo reverencias aos nobres fidalgos que caminham pelos corredores (Leia-se fidalgos, consumidores de classe média, compulsivos). Você pode ver uma exposição de tapetes persas, pode ver na vitrine o ego dos escritores e poetas exposto nas livrarias ou em capas de livros bem produzidas e pode ver também muitas inutilidades e provocações próprias do sistema capitalista, como os tais livrinhos de auto-ajuda.
Se você for um idiota completo, pode até sair de lá com uma camiseta nova, com sua foto no peito e escrito assim: “Amo minha família”. Não sei por que dizer isto pra todo mundo, de peito aberto, feito um babaca e fica pior quando não é em forma de um adesivo no vidro traseiro do carro e completando: “Jesus é fiel”
A majestade portanto, é o cliente que passeia solene ganhando reverencias e sorrisos. As pessoas andam alegres e descontraídas pelas praças de alimentação felizes, como se a vida ali naquele ambiente fosse proveniente de outro mundo ou aquele antigo jardim de Palmeiras, onde as moças desfilavam pra lá e pra cá e os rapazes ficavam ali de pé, olhando aquele “trottoir” de virgens. Um mundo perfeito, sem preocupações. Como se nada errado existisse cá fora, ou lá “no alto” onde as navalhas mostram que ainda estão afiadas e desafiando presídios incandescentes. Mais ou menos como aquele que freqüenta uma igreja, entra, agradece a Deus por tudo que tem e o resto que se dane.
O ar condicionado é o espelho exato da frieza e da formalidade do ambiente. Camisetas de R$80 a R$480, sem constrangimentos. Tudo muito mecânico e ninguém se cumprimenta, escorregando pelo piso de mármore, apesar de que os mais jovens trocam olhares românticos e andam em bandos formando tribos felizes e até podem voltar a freqüentar cinemas. O incrível nesse ambiente de festas é que o lema diz: Somos todos estranhos, mas isso não importa.
Os cinemas voltaram, os jardins muito bem cuidados lá fora, mostram a competência dos projetos de decoradores que exibem seu talento pelos interiores das lojas sem considerar os pontos de iluminação misturando tecnologia e inteligência para absorver os recursos naturais e claro, estarem acima de tudo corretosdo ponto de vista ecológico e pra ativista algum de plantão colocar defeitos.
NO lugar das carruagens de Ben Hur, os modernos veículos. Para substituir os títulos de Rei, rainha, princesas, condes, etc, os internacionais cartões de crédito com os limites e senhas. Uma aparência aristocrática substitui solenemente a apresentação da identidade. Se requerida, não se importe não será porque você não tem o rosto de um fidalgo, mas será sempre pelo desprezível comportamento de um funcionário de uma dessas Ongs totalmente despreparados. Entenda-se por ONGs, obviamente todos aqueles estabelecimentos comerciais que estão ali, satisfazendo nossas necessidades e atitudes doentias, compulsivas de consumidor, e por conseguinte com alvará da administração municipal, autorizados a explorar o fantástico mundo do comercio (em outras palavras, você), ostentando griffes e luzes coloridas para atrair consumidores. Tudo que você precisa, está rigorosamente ao seu alcance, desde que pague.
Não se impressione com os preços, tudo que você está desfrutando naquele ambiente custa caro, os corredores limpos e brilhando, refletindo sua imagem como um espelho de um hotel 5 estrelas. Isto tem um custo e ninguém reclama, como reclama de impostos altos para remunerar uma vigilância eletrônica via satélite que impeça o desmatamento na Amazônia.
Todo “footing” da cidade nobre,é transferido sumariamente para dentro desses castelos modernos, onde a elite predominante passeia à vontade e declara demagògicamente a ausência total de preconceitos (alguns) quando percebe do lado, um consumidor de feira hippie que lá está fascinado em conhecer o fantástico mundo da classe A e do espetacular mundo da moda, com modelos de roupas esfuziantes, jóias caras e raras.
Ele se denuncia quando procura um pastel de carne grande com 100 grs de queijo daqueles servidos em mercados centrais e fica frustrado porque não encontra nada além daqueles mini, fabricados pelo Mc Donald´s. A calça Jeans de R$450, ele olha com desdém porque compra “melhor ou igual” no Brás, Bom Retiro ou na Bernardo Sayão em Goiânia. Será verdade? Alguns já sabem que isso é absolutamente verdadeiro.
Quem pergunta por uma igreja, uma capela dentro de um Shopping? Quem se lembra de Jesus, quando degusta um “petit-gateau” e paga por ele num restaurante australiano R$25,49. Aliás o cardápio consta esses décimos de centavos, nem sei por quê? Será porque é chic?
A iluminação da “cidade” é fantástica, parece noite de natal e nessa época do ano, já podemos encontrá-lo por lá com sua exuberante barriga abraçando as criancinhas e permitindo a eles a visão mágica do bom velhinho. As câmeras de filmagem pescam todos os movimentos e qualquer atitude suspeita é sufocada rapidamente e de forma discreta com um extremo cuidado para não ferir suscetibilidades geralmente de plebeus que sofrem de auto-flagelo. Muito raramente a imprensa sequer freqüenta esses ambientes com intenção de pescar alguma coisa errada, porque lá estão os principais anunciantes com gordas verbas de publicidade. Se algum pequeno ladrão se atreve a furar o cerco é retirado do ambiente, ninguém fica sabendo, a não ser quando tentam entrar com um avião pela porta principal, como ocorreu por aqui em Goiânia, há uns três anos.
Você não vê uma parede mal pintada, descascada, uma cadeira quebrada, esgoto exposto (como se pode ver em Belém) mesmo que seja nos subterrâneos dos estacionamentos e tampouco vê um pivete catarrento puxando a perna de sua calça, pedindo “tio me dá um dinheiro”.. Quando falta a energia elétrica, os geradores próprios são imediatamente acionados, sugerindo a existência de um mundo extra, perfeito, sem problemas, que você pode ver pelo requinte dos elevadores panorâmicos. É quando se pode dizer que Deus está sempre do lado dos ricos e aos pobres de presente de natal, os barrancos deslizantes.
É por isso que eu disse que gostaria de morar dentro de um Shopping, mesmo tendo a horrível sensação de estar constantemente sob vigilância, como nos condomínios que são quase uma espécie de extensão, mas pelo menos eu poderia descer do meu “flat” imaginário, no ultimo piso, degustar um filé mignon com arroz e brócolis e saborear um sorvete e ter certeza que estaria morando num paraíso.
E iria com certeza acordar vivo todos os dias, livre das balas perdidas e com a vantagem de ter sanitários limpos e amplos em todos os pisos à disposição para uma corrida louca para sair do sufoco, entre hidrantes imaginários e que choram.
Esta foi uma edição atualizada de um texto publicado na Pontenet em 09.04.2008 (primeira etapa) que muitos leitores não acessaram.


