Isto é uma noite de 7 de setembro de 2015. Uma corda aperta o pescoço do morto-vivo que caminha no tumulto das manifestações contrárias ao governo. Bonecos infláveis sobem ao ar, retratando Dilma e Lula. É uma dança de ventos secos, com rasgos de desafinados e saudosistas do passado. Pedem o retorno dos Militares. O povo derruba o muro da vergonha que separava a massa do brilho do desfile. Esplanada dos Ministérios comporta Michel Temer e Jacques Wagner no mesmo palanque da Presidente.
Meu texto sangra de dor, pois me sinto distante dos sonhos que carreguei um dia no coração. Bate-me uma tristeza profunda e na agonia, busco conseguir levar adiante esta situação que está cada vez mais dura e cruel. E tudo isso, por que tive a audácia e a coragem de acreditar no ser humano. Usaram e abusaram da minha boa fé. Me sinto encurralado e quase sem ação.
Não seria certo estar comemorando o Dia da Pátria? Coincidentemente é o dia do meu aniversário… Não me mandaram flores e nem me telefonaram. Não me achariam em canto nenhum. Roubaram o meu celular e não tenho fixo. Preferi, sempre, a solidão do meu quarto ou o canto reservado do bar para tomar cerveja e ler jornais e revistas. Hoje, estou mesmo entrando em parafuso. Não sei se amanhecerei com forças para continuar. Não sei onde buscar esta necessidade premente.
O morto-vivo escuta Bruce Springsteen (Dancing in the Dark). Ou lê o texto que Paula Solar postou no Facebook. Leiam que coisa intensa: “A minha intensidade não é uma escolha, não é qualidade nem defeito, é uma característica. A minha intensidade não pode ser detida, mas canalizada. Eu posso amar com a profundeza do absurdo sem sufocar o Outro. Eu posso rejeitar com todo o meu ser sem ferir. Eu posso estar totalmente junto sem tentar controlar, me apropriar, invadir. Eu posso exercer a minha intensidade de maneira assertiva quando identifico que ela é apenas minha maneira de sentir. Ela pode assustar, ela pode atrair, mas tenho o cuidado de me deixar esparramar e ser penetrada com delicadeza. Pois a minha intensidade pode ter ardência com leveza. Eu não preciso negligenciá-la se ela respeita espaços que não são meus. Eu não preciso tentar abafá-la se a uso para criar Belezas ou entrar em contato com o que quer que seja. A minha intensidade quando é um problema meu, vira solução….”.
O morto-vivo acessa o Facebook e conversa com Isabella Ottoni, gente que o mundo precisa observar melhor, sem se preocupar com a estética. Leiam a alma desta mulher e sigam em frente. Espreito o telefone, mas ele não toca. Preciso de ar para avançar pela noite adentro que será longa e angustiante. Agora meu ser voou para paragens felizes da minha terra natal: a professora Dóia, com sua vez quase em surdina e os gestos sensuais de Maria Inês. O trem de ferro apitando na Lagoa Seca e o jardim dos micos-estrela.
E o caminho que leva ao Ginásio, com um frio terrível vivenciado nas manhãs de junho invade Minh ‘alma dilacerada.
Preciso sair deste jeito sem jeito. Vou comemorar com todos aqueles que já partiram, mas não deixaram o sonho morrer: Jesus Cristo, Che Guevara e Francisco de Assis!


