Eu tenho uma filha psicóloga e quando pode atende-me no seu “consultório particular”, sem cobrar consulta. Ela mora em Belo Horizonte, onde está radicada desde os tempos de estudante da FUMEC. Eu fico por aqui, zanzando de um lado para outro, plantando árvores, fazendo palestras, cercando nascentes, mobilizando produtores rurais, debatendo legislação ambiental, tomando cerveja. Tudo dentro da mais absoluta intranquilidade, pois tenho detratores que não me deixam em paz. Verdadeiros torturadores virtuais e mentais.
Preocupada com o andamento das coisas nos últimos tempos em minha vida, Vivyane aconselhou-me a deletar da minha convivência algumas pessoas. Citei os nomes e descrevi a personalidade de cada um deles. Ela então me disse:“ Faça isso, ou você se sucumbirá lentamente”.
Aceitei seu conselho. Afinal, ela aceitou muitos conselhos meus mesmo a contragosto. Não só de conselho de pai e mãe vive a humanidade. Também de conselho de filha para pai. Fica claro que minha filha não fez juízo de valor destas pessoas individualmente e nem demonstrou raiva ou qualquer outro sentimento de repulsa. Pelos fatos narrados por mim, ela entendeu que estas pessoas ao longo da minha vida em Ponte Nova só tentaram me sacanear e destruir-me moralmente. Estou tão bem que voltei a escrever contos, crônicas e textos diversos.
Na década de 1980, na minha juventude vigorosa e com uma verve cultural latente, me inscrevi em diversos movimentos culturais. Neste grupo seleto conheci um traidor da causa. Não vou citar o nome, mas amigos me aconselharam a chamar o caro de Cabo Anselmo. E quem é Cabo Anselmo? Um traidor e dedo-duro da pior espécie. Lambe-botas dos militares da Ditadura que assolou este País por mais de 21 anos.
Antes deste episódio que marcou profundamente minha vida e que ajudou a moldar meu caráter, entendendo que perdoar este tipo de pessoa faria um bem enorme para a minha atormentada alma, conheci outro grupo de pessoas. Estas se dedicaram a criar a primeira ONG de toda a Zona da Mata, umas das primeiras do Brasil: APAN/Associação Pontenovense dos Amigos da Natureza.
A luta a ser empreendida era a criação do Parque Florestal Passa-Cinco, que hoje se chama Parque Natural Municipal Tancredo Neves, nome sugerido pelo prefeito Sette de Barros (1983-1988). Conseguimos, com muito trabalho da APAN, que era presidida Alfredo Padovani, estudante de Engenharia Florestal na UFV, que participou dos primeiros levantamentos do Parque, sob a coordenação do Professor James Griffth. O decreto de criação do Parque (07 de dezembro de 1982) foi elaborado por Hélcio Totino, que vem a ser o avô da minha filha psicóloga Vivyane. Todos nós contribuímos para este sonho, que foi concretizado, com apoio do jornal “O Município”, que publicava meus artigos que defendiam a criação do Parque e polemizava com o grupo político (conservador) que não queria.
Nos tempos atuais, novamente, juntos (ambientalistas e toda sorte de “especialistas”) criamos a Organização Ambiental Puro Verde. A trilha era a defesa do rio Piranga. Começamos levemente, limpando as margens do Piranga, mas publicamos livro, cartilha e álbum de figurinhas. Temos assento (titular) no CBH Piranga e no Codema (Ponte Nova).
Veio o melhor dos sonhos: emplacamos o Projeto Rio Piranga no Programa Petrobras Socioambiental. Erramos na elaboração do Projeto e aprendemos muito no campo. Rodamos cerca de 70.000 (setenta mil quilômetros) em duas caminhonetes, plantamos milhares de árvores, confeccionados mais de 80 mil peças de divulgação (informativo, folder, cartilha e vídeos); a infraestrutura do viveiro de mudas de Novo Soberbo foi promovemos megaevento ecológico, com mais 2.500 pessoas no “Abraço ao Rio Piranga”; as comunidades de Barra Longa, Ponte Nova, Guaraciaba, Santa Cruz do Escalvado e Rio Doce assistiram peça de teatro sobre a crise hídrica; mais de 11.500 pessoas receberam diretamente Educação Ambiental através de palestras e exibição de vídeos; promovemos 12 Dias de Campo em comunidades rurais e cercamos/revitalizamos 65 nascentes.
Mas o ano de 2015 não foi legal comigo. A ONG foi denunciada no Ministério Público por integrantes do Conselho Fiscal da própria entidade. Toda da documentação solicitada pelos promotores de Justiça que cuidam do Inquérito Civil foi entregue. Ainda não me ouviram. Não me preocupa com o que vai acontecer. Sou honesto, tenho dignidade e nem amealhei riqueza. Continuo o mesmo Ricardo Motta que todos conhecem: andando a pé ou de lotação; morando de aluguel (estou sendo despejado por ter atrasado o pagamento).
Não tenho conta bancária e meu patrimônio é este: uma imagem (escultura em cedro feita pelo artista plástico e meu amigo Antônio Inácio/Boneca); uma imagem em cerâmica de São Francisco de Assis, trazida pela Secretária de Meio Ambiente, Alessandra Gomes, da cidade alagoana de Piaçabuçu, onde o Velho Chico deságua no mar; 01 (uma) TV de 29 polegadas; duas camas-box (solteiro e casal); uma cômoda; uma mesa com quatro cadeiras; um fogão com um botijão de gás e algumas peças de cozinha que ganhei em um “Chá de Casa Nova”. Faltam algumas peças prometidas e não entregues.
Bom lembrar para os navegantes de plantão: tenho um armário de aço emprestado por João Brante um conjunto de sofá usado, cedido pelo grande diretor da ONG Puro Verde, Felipe Polesca. Tenho dezenas de livros, revistas velhas, roupas em desuso e alguns diplomas, comendas e troféus que ganhei durante minha vida.
Já se passouum ano inteiro (desde novembro de 2014) do início dos problemas. A lembrança e a imagem de certas figuras rondam meu sono (tenho insônia desde jovem) e conseguem transformar meus sonhos em pesadelos. Mas o timoneiro é forte e não largará o leme (Major Damasceno escreveu um poema dedicado a mim, denominado “O Grande Timoneiro”). Mas, sou resiliente. Minha energia não se esgota e para aqueles que acreditam que vão me transformar em cinza, estão enganados. Se isto acontecer, vou emergir das cinzas qual Fênix.
Tenho certeza de que não sucumbirei à tortura de dedos-duros, de pessoas nefastas, pois sou do bem. Não consigo matar nem barata, pois acho todo o ser vivo tem sua utilidade. Até mesmo os psicopatas e os dedos-duros. Segundo os especialistas, este tipo de pessoa existe perto da gente. Eu descobri isto na prática. Se eles não existissem não poderíamos confrontar as personalidades e não teríamos e nem precisaríamos de psiquiatras, psicanalistas e psicólogos.
Não morrerei sob tortura, como aconteceu com a companheira de Cabo Anselmo, Soledad Barrett Viedma, grávida de quatro meses. Mesmo assim, Anselmo a entregou para o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Soledad não resistiu às torturas e morreu. Para aqueles que me querem ver na pior, me defendo com os versos de Ezequiel, Frejat e Goffi, com vocal de Cazuza, ainda no Barão Vermelho:
DECLARE GUERRA
Vivendo em tempo fechado/Correndo atrás de abrigo/Exposto a tanto ataque/Você tá perdido
Nem parece o mesmo/Tá ficando pirado/Onde você encosta dá curto/Você passa, o mundo desaba
E pra te danar/Nada mais dá certo/E pra piorar/Os falsos amigos chegam/E pra te arrasar/Quem te governa não presta
Declare guerra aos que fingem te amar/A vida anda ruim na aldeia/Chega de passar a mão na cabeça/De quem te sacaneia
Vivendo em tempo fechado/Correndo atrás de abrigo/Exposto a tanto ataque/Você tá perdido.
(*/WikipédiA) José Anselmo dos Santos, conhecido na história recente do Brasil por cabo Anselmo, (Itaporanga d’Ajuda, 13 de fevereiro de 1942) é um ex-militar brasileiro, líder durante aRevolta dos Marinheiros, evento que desencadeou a crise do término do governo de João Goulart, em 1964, através de um golpe de estado, e o início da ditadura militar brasileira. Agente infiltrado das forças de repressão do Governo, ajudou os militares a capturar guerrilheiros e opositores da esquerda armada, pelo governo militar da época.
Após o golpe, Anselmo foi expulso da Marinha pelo crime de motim e revolta. Chegou a ser preso, mas “fugiu”, exilando-se por último em Cuba, voltando ao Brasil somente em 1970, quando se ligou como membro atuante em movimento guerrilheiro, sendo preso pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Dops.
Somente após esta prisão, Anselmo reconhece ter aceitado trabalhar para o Governo Militar, quando infiltrou-se em grupos de esquerda e movimentos sindicalistas. Porém, havia suspeita de que antes de 1964, Anselmo já fosse um agente infiltrado nesses movimentos, sendo sua função fornecer informações para os órgãos de repressão do governo. Tal suspeita tem base em depoimentos como o do policial Cecil Borer, ex-diretor do DOPS do Rio de Janeiro. Cecil afirma que Cabo Anselmo já possuía treinamento específico para trabalhos de infiltração antes do golpe militar. Apesar de negativas de Cabo Anselmo e seus apoiadores, há evidências documentais das próprias forças armadas que ele realmente já fosse agente de infiltração, antes de 1964 e da revolta dos marinheiros. Teria se tornado militante radical de esquerda a partir de 1970, e depois, participou da morte dos próprios companheiros de esquerda.
Mesmo considerada apenas sua atuação assumida como agente da repressão, Anselmo levantou com sucesso uma grande quantidade de dados sobre os movimentos dos guerrilheiros brasileiros, resultando na prisão, morte e tortura de vários de seus integrantes.


