Síndrome existencial
Estou plenamente convencido que passados tantos anos após eu ter nascido é bem provável que do alto dos meus 70 anos bem vividos (ou mal vividos) eu possa estar curtindo um estado de síndrome generalizada. Ter um receio calculado, um medo previsível de tudo, às vezes até parece um medo premeditado, planejado. Eu disse curtindo?
É bem possível que seja isso mesmo, já que as alternativas para ser feliz estejam cada vez mais reduzidas e encurraladas pela arrogância e certeza da impunidade daqueles que são portadores da nova ordem imposta pela nova classe dominante: Os parasitas (Eu disse nova, porque as configurações de hoje desses seres que sempre existiram desde os tempos do medievo, surgindo das trevas, ganharam o reforço moderno da tecnologia e do conhecimento acelerado.
Eu disse alternativa para ser feliz, não por mim, mas porque sinceramente penso nos outros, penso na humanidade. Penso no que será nosso futuro, com pessoas tão perturbadas e ocupadas com delírios e implorando o sucesso pessoal, a saúde pessoal, a felicidade pessoal, o conforto individual e o resto que se dane.
É possível que desde que Nero tenha colocado fogo em Roma, nada mudou ou tenha mudado, com o estouro das torres gêmeas ou com o “simples” tiroteio do Carandiru ou com o pipocar espetacular de caixas eletrônicos implodindo o orgulho ferido de nossa sociedade indefesa. Pobres menores que não articulam, não possuem o conhecimento técnico e sequer planejam o crime e como executores que nada tem a perder e com um percentual muito pouco representativo, vão carregar o peso e num desvio de foco estrondoso o congresso e o senado do planalto central de toda America, dirá ao mundo que os tupiniquins do sul, travestidos de legisladores, extinguiram o crime abaixo da linha do Equador.
Foi nada disso, o que fizeram foi provavelmente envergonhar os Senadores de Roma, que se vivos estivessem, estariam abismados com essa insensatez. No Brasil é sempre assim, radicalizar, extrapolar e exagerar para encobrir a verdade, ou dissimular a ineficiência do Estado para gerir a educação e garantir um futuro melhor às nossas crianças. A segurança no transito foi imposta com a maldita lei seca, que encobriu o uso de drogas ilícitas que somente podem ser detectadas por cães farejadores. Os bafômetros detestam e discriminam apenas o percentual de álcool na cerveja, nos vinhos e até mesmo em algum remédio que inadvertidamente possa ter sido tomado. A ditadura não foi extinta em órgãos do Detran, onde eles parecem ter mais poder e certamente se colocam acima da com constituição que foi rasgada solenemente.
Alguém cantou um dia que o “sonho não acabou”. -Ele se enganou, tanto que morreu assassinado e desde então os lucros não acontecem, são provisionados criminosamente (quem é formado em contabilidade sabe do que eu estou falando) e exigidos em bolsas do futuro e são pagos na boca do caixa, mesmo com endividamento da empresa para tal fim. Um absurdo quando se trata de empresas que deveriam certamente estar pagando melhores salários ao invés de apenas distribuir dividendos. Fica pior quando querem, como querem agora, privatizar mais ainda o ensino publico, as cadeias, os hospitais, e até mesmo policiais militares serem funcionários de empresas particulares e prestarem serviço ao Estado na PM, como aconteceu recentemente aqui em Goiás.
Eles não trabalham, eles tomam. Eles não hesitam, matam. Eles não sabem elogiar, reconhecer um ato de bondade, eles estão sempre criticando. Eles detestam lidar com a verdade e fazem a inversão dos fatos e detonam a mentira com uma dose incrível, de credibilidade e a certeza que não se sabe de onde a tiram. Mas esconder a verdade, como essas que citei acima e pode ser uma festa bonita, aos olhos de quem nada sabe e não quer saber. Eles induzem as pessoas ao desespero, fabricam crises de mercado, fabricam crises econômicas como se elas não existissem com a naturalidade que impõem um sistema econômico que gerencia a sobrevivência humana, através do trabalho cuja medida e regulação se faz pela quantidade de moedas que se carrega no bolso ou que se tem acumulada. Um sistema perverso que se regula pela quantidade de metros lineares de cercas de arame ao redor de terras ou de muros ao redor de pequenos castelos, ou até mesmo de portas abertas e escancaradas para a mentira de um deus regulador, providencial, paradoxal.
A impunidade a que me referi lá atrás, não é propriamente uma cela inexpugnável com soldados armados e condenando o criminoso ao isolamento. A impunidade a que me refiro é quando se olha na frente do espelho e o peso da consciência não incomoda, não atrapalha o sono. Muitos pensam que a qualidade do sono, está diretamente ligada à qualidade do colchão, onde descansa o esqueleto que carrega um cérebro criminoso e egoísta.
Vivemos entre espinhos que se embrutecem antes e depois de conhecerem as grades de ferro e ao mesmo tempo com os espinhos que nos maltratam a vida inteira e nos tiram a alegria de viver pela inconsciência que possuem do mal que nos fazem. São supersticiosos, convencidos, mas em sua plena ignorância podem ou conseguem apoderar-se das mentiras e manipulá-las como armas letais em forma de lanças venenosas para que nós outros, mortais comuns e inocentes, possamos viver o inferno que não merecemos. Eles estão por ai, espalhados, ricos, “levando vantagem em tudo”, movidos pela Lei de Gerson que apenas repete Alexandre o Grande.
O ponto de partida desses otários úteis pode ter sido a solidão em um possível ou suposto estágio vivido em pedaços ou momentos de suas vidas que não quiseram e jamais partilharão com ninguém. É por si só uma experiência mista de autoflagelo e sem quaisquer desejos de reflexão. Estão sempre em guerra e serão sempre os donos das balas perdidas no verdadeiro sentido da palavra, ou no sentido figurado que se pode traduzir pelas maldades que vomitam na WEB.
A síndrome está exatamente no medo que todos nós temos de “identificar no outro, aquilo que temos em nós mesmos”. Será verdade isso? A maldade no mundo é natural, não podemos nos culpar individualmente, mas fazemos parte de uma sociedade que carrega culpas milenares. O problema é que o processo de construção de culpas é lento e o da desconstrução é mais morosa e repleta de dificuldades institucionais, fabricadas por aqueles que covardemente plantaram a desigualdade e pagam muito barato pela manutenção da covardia. A verdade é que temos que saber que de fato, que o ser humano integro, honesto não identifica nada seu, no outro que comete delitos. Essa é a certeza que temos que ter.
O problema é que hoje enxergamos grades à nossa frente, a todo momento e o pavor é tão grande que na confusão muitas vezes não conseguimos definir se estamos do lado de fora ou se do lado de dentro e pior quando temos a chave das nossas próprias grades e ficamos com receio de abri-las.
Fatos novos começam a povoar nossas mentes fragilizadas, culpadas e de um dia pro outro nos tornamos zumbis sem causas, sem bandeiras, sem vontades, fortalecendo a nossa crença apenas na esperança que imploramos de joelhos em bancos de igrejas ou em terreiros de umbanda ou nesses exorcismos fajutos, caretas (como sempre foram, mesmo com toda a pompa de uma batina dourada), todos os nossos anseios.
Por ora, ainda estamos nos agarrando e sobrevivendo de excedentes de produção. A tecnologia ironicamente prorrogou o fim trágico da estrada da humanidade, mas não consegue controlar o câncer que causou no sistema produtivo, que não usa mais o ser humano, que, cada vez menos remunerado, tem cada vez mais, menos poder de compra e o mercado é exigente. A Lei da oferta e da procura é implacável.
Eu vivo a síndrome capitalista selvagem. Não vejo a luz no fim do túnel. E parece que Deus já enviou um recado curto e grosso: Não sou definitivamente um “Personnal God” como querem os desesperados e como dizem os pregadores. Obvio que estou encerrando meu texto, exercitando na plenitude da minha descrença a arte da empatia.
Meu respeitoso e carinhoso abraço àqueles que possuem a consciência política e apreciam o delicioso debate para discutir respeitosamente futebol, política e religião (nessa ordem ou na ordem que cada um que me lê desejar), exibindo a deliciosa ideologia, um imperativo no ser humano inteligente, seja qual for, mas consciente. Aos demais, meus pêsames.


