Mas morrer lentamente é um “saco”, uma tortura.
Pensar, refletir, sobre vida e morte é como sair da luz e entrar numa outra dimensão. Surge uma necessidade premente de um ensaio pré-morte ou pós-morte, e assim, a pilha acaba e na escuridão completa e no silêncio intrigante, você se desliga, divaga. Fica ausente por alguns momentos e inicia a busca de uma solução ou de uma análise do mundo, da existência, do comportamento humano que pende ora para o sadismo, ora para o masoquismo.
Diante do absolutismo da natureza somos como patos. É como se Deus (que dizem existir e eu como ateu confesso tive o cuidado de escrever seu nome com D maiúsculo) brincasse com os seus amigos anjos, de tiro ao alvo. Quem vai ser o próximo? – Diz o poderoso que criou essa gaiola de loucos nesse universo sem fim, imagino eu. E assim, quanto mais avançada a sua idade, você assiste seus amigos e conhecidos sendo “abatidos” um a um e o passo seguinte é o velório onde você se porta de uma forma estranha, misturando conformismo com uma tristeza embutida. Você chora copiosamente ou partilha piadas e recordações. Hoje vi com tristeza a noticia do falecimento do grande José Wilker, também ateu assumido e como sempre gozou de respeito e admiração até o momento não li nada que pudesse enxovalhar sua “alma”. Rsss. Dizem que José Wilker se tornou ateu porque teria estudado em Colégio Saleziano e teria sido um protesto contra padres pedófilos. Pobre Wilker depois de morto não tem como se defender dessa insinuação tola. Alguns conterrâneos meus brincam comigo até hoje, dizendo que me tornei ateu por causa do padre Adolfo (e eu cito o seu nome aqui apenas por brincadeira, porque pessoalmente nunca pude acusá-lo de qualquer assédio) e assim ofendem o meu status de livre pensador. Mas, de qualquer forma, afirmo e reafirmo que na hora do recreio,jamais entrei naquele pequeno deposito de material esportivo que ele gerenciava. Sempre fui muito bem orientado e muito preventivo. Rssssss.
Mas… retornando ao tópico proposto (morrer) você sabe que a vida vai continuar e assim deve ser.
Você pensa na crise do ego, do super ego, trabalha o inconsciente e a fita do filme de sua própria vida começa a rodar.
E se a sua etiqueta de validade anda meio amarelada, bate a crise do conformismo, que não dói tanto, mas incomoda, principalmente quando os parentes e amigos da mesma data base de nascimento, como diz um primo meu Marco Antônio Guimarães, “começam a ir pro saco”.
O encantamento da sala de espetáculos, a crise do peso na consciência por pequenos ou grandes delitos, deriva para o social, o coletivo. O passado vem à tona e se mistura com o futuro sombrio e se os impasses afloram, a luz no fim do túnel desaparece. Você pensa em si próprio, pensa no sistema cruel, você pensa na crise da igreja que permite a vulgarização, banalização e comercialização cada vez mais crescente da fé. Você quer ter fé em valores morais, em virtudes e acaba tendo fé no inferno, no céu, naquilo que não pode ver, não pode tocar.
Você prefere assim, é mais cômodo, é mais misterioso e mais prático, matar de uma só paulada todas as suas dúvidas, no grande bacanal das ilusões em forma de Vaticanal, Universal, Mundial e outras coletorias arrecadadoras que existem por ai.
Em busca de uma coexistência pacifica, em busca do reencontro com os princípios éticos. Você ouve o mundo inteiro gritar e as vozes dizem, – poderia ter sido melhor. Ou poderia e deveria ter sido o melhor (que é muito diferente). Que merda, eu não tenho que ser o melhor, o maior, eu tenho que ser e fazer aquilo que gosto que desejo e não gosto de receber ordens de comandantes sem justas causas.
Jamais aceitarei que alguém diga pra mim que eu não devo gostar dessa ou daquela pessoa. No facebook o atual muro das lamentações eletrônicas da humanidade tem sido assim. Você mostra a sua cara e seus amigos de outrora, passam a lhe ver com outros olhos. O fanatismo religioso exige respeito. O fanatismo é uma doença intragável, pois ela porta certezas que a cegueira inventou.
Você pensa nos amigos que perdeu e nem sabe por que. Você se vê na porta de entrada da terceira idade e fica ranzinza, implicante, mentiroso e quer bater em todo mundo e quer por que quer o mundo a seus pés. E você então não vê que os mais jovens chegam com inteligência, com astúcia e com o apetite voraz. Eles querem o seu lugar, eles sabem que você mais cedo ou mais tarde vai embora. Você não sabe se está pensando e falando de você mesmo, porque os críticos implacáveis fazem você se perder, fazem você acreditar que tudo que acontece é por sua culpa.
E o pesadelo prossegue e é como estar num sono profundo e poder dirigir as cenas, definir o que quer que aconteça. E no limiar da noite, nas profundezas das trevas, você se levanta sem sono, refletindo e anotando frases e pensamentos que são as suas verdades, os seus sonhos, as suas frustrações, soando em busca do inédito. E o inédito foi exatamente encontrar e reviver em lembranças esse mundo cão diante dos olhos estarrecidos.
São reflexões que transbordam, que traduzem estados de angústia ou até mesmo de plena felicidade. No dia seguinte, você pode ler e jogar fora e ficar rindo de sua pobre visão, do que é ser triste e estar triste ou, feliz e estar feliz, Fazer amigos e destruí-los, entendem?. A vida portanto, não é tão simples quando se fala de seres humanos. Somos todos canibais em toda extensão da palavra. Existem amigos de verdade, mas são muito poucos e assim jogando conversa fora, resolvi escrever esse texto, por causa do olhar de um amigo meu aqui em Goiânia, que definitivamente não acredita em amizades e aposta em trocas. A vida pra ele é uma grande loja de conveniências. Isto é cruel, mas pode ser verdadeiro e pra mim não é novidade porque de certa forma sempre achei que viver é uma troca..
É que eu não me conformo com aquela premissa do “penso, logo existo”. Mas…meu entendimento é muito escasso e não me conformo com uma etiqueta que colocaram no meu pescoço e que mostra uma data de validade. Mostra praticamente o dia marcado para morrer, sem falar nos imprevistos, nos acidentes cuja possibilidade real nos apavora.
Temos o exemplo recente de um famoso – o Schumacher – que pela lógica poderia ter morrido da mesma maneira que Airton Sena e acabou com a sua vida mexendo também com a maldita droga chamada adrenalina. Resultado, vai morrer aos poucos, o que é passa ser uma merda rala.
Portanto, morrer é mesmo uma merda, sob todos os aspectos e com todos os sentidos figurados possíveis. E por falar em morrer, você já comprou seu pequeno lote, no “jardim das saudades”, vulgarmente chamado cemitério? E já pagou antecipadamente pelas flores sem “espinhos” ? Durante muito tempo, você acompanhou seus amigos e parentes e lá depositou muitas flores e quando o seu dia chegar, que pode ser hoje, ou a partir de hoje, a qualquer momento, seus amigos, e/ou seus inimigos, acompanharão você para o irreversível “the last Day”. Muitos chorarão de verdade e outros dissimularão o alívio e a alegria por não precisarem mais tolerar a sua presença. Ou você é daqueles defuntos fedorentos e nojentos que já morreu há muito tempo e só falta deitar? (rsss).
De qualquer forma, um brinde especial aos meus amigos de verdade e longa vida, claro de preferência comigo por perto.


