*Trechos retirados da revista VEJA – Outubro de 2013 (ed. 2345 – ano 46 – n. 44)
No ano passado, 25 neurocientistas assinaram uma declaração atestando que as estruturas do cérebro responsáveis pela produção da consciência são análogas em humanos e outros animais, incluindo todos os mamíferos, algumas aves e criaturas, como o polvo. O documento ganhou forma em uma conferencia da Universidade de Cambridge. Um dos signatários é Philip Low , o criador do iBrain, aparelho que permitiu a leitura de ondas cerebrais do físico Stephen Hawking. Disse Low a VEJA: “Podemos afirmar que os animais são conscientes com a mesma certeza que afirmamos que outro humano é consciente.”
Entende-se por consciência a capacidade de perceber aquilo que se passa dentro e fora de si. Há diferentes formas de mensurá-la. A indicação mais básica de que existe é a noção da própria existência, presente em vários animais. Para comprová-la, costuma-se aplicar o teste do espelho, no qual o bicho é colocado para interagir com seu próprio reflexo. Macacos de grande porte, golfinhos, elefantes, orcas e porcos passam com louvor nesse tipo de avaliação. Já cães, gatos e bebês humanos são reprovados. Como é praticamente impossível identificar se o macaco realmente entende que está sendo refletido no espelho ou se imagina tratar-se de outro animal ou de um brinquedo, muitos pesquisadores preferem avaliar a consciência de acordo com a atenção e a capacidade de aprendizagem.
Um estudo apresentado nesse mês por neurocientistas da Universidade de St. Adrews, na Escócia, demonstrou que os elefantes são capazes de entender o gesto humano de apontar o dedo sem nenhum tipo de treino prévio. Poucos animais tem essa habilidade. Os cachorros, por exemplo, só a desenvolvem com adestramento. Por outro lado, os cães se saem muito bem em avaliações de sentimento. Também neste mês, o neurocientista Gregory Berns, professor da Universidade Emory, nos Estados Unidos, publicou um artigo no jornal The New York Times no que afirma que os cachorros sentem mais emoções do que se pensa. Berns usou aparelhos de ressonância magnética para analisar a estrutura cerebral dos cães e constatou semelhanças com a dos seres humanos no que diz respeito à constituição e ao funcionamento do chamado núcleo caudado, região associada às emoções positivas. Escreve Bers: “A capacidade de experimentar sentimentos, como o amor e o apego, significa que os cães tem um nível de sensibilidade comparável ao de uma criança. Essa capacidade sugere que devemos repensar a forma como os tratamos.”
O naturalista Charles Darwin foi um pioneiro em perceber as formas peculiares da inteligência dos bichos, no livro A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, de 1872. Após observar animais domésticos e selvagens, Darwin concluiu que a habilidade de expressar emoções é algo que compartilhamos com varias espécies. E mais: que os “movimentos expressivos “ também são frutos da evolução – consolidaram-se ao longo do tempo.
No livro A Era da Empatia, publicados em 2009, o biólogo holandês Frans de Waal defende a tese de que um animal é capaz de se colocar no lugar de outro e até sentir compaixão. De acordo com Waal, há três níveis de empatia. Na base, estão os animais como a galinha e os hamsters, que conseguem identificar o sentimento de seu par e, eventualmente, ser contagiados por ele. Chimpanzés e elefantes estão entre os animais com maior grau de empatia e, assim como humanos, são capazes de entender que outros indivíduos pensem e ajam de maneira distinta.


