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PODA DESNECESSÁRIA TIRA A BELEZA DOS OITIS DA RODOVIÁRIA VELHA

Para quem não sabe, a arborização modelo de Ponte Nova, o plantio de 25 oitizeiros (oitis) na margem esquerda do Rio Piranga, em frente à Rodoviária Velha foi pensada em 2008.

Naquela calçada de cimento bruto, hoje de pavers, existiam 19 árvores da espécie espatódea, ou mijo-de-gato, como é conhecida popularmente. Árvore exótica de origem africana, que tem flores tóxicas que ameaçam abelhas e beija-flores, levando estados a regularem seu plantio para proteger a biodiversidade.

“Esta espécie é muito utilizada como planta ornamental em áreas urbanas. As flores da espatódea são chamativas pois são vermelhas e muito grandes, apresentam grande quantidade de néctar e mucilagem” explica a professora doutora Kayna Agostini, pesquisadora na área de biologia da polinização, da Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.

De acordo com Kayna, estudos revelam o envenenamento de colônias de abelhas tiúba e uruçu-boca-de-renda (em São Carlos) pelo pólen da espatódea, possivelmente uma estratégia utilizada pela planta para impedir que as abelhas utilizem o seu pólen como alimento. Com isso, impedem sua coleta sem que haja polinização. A mucilagem das flores, secreção presente em grandes quantidades nos botões florais, presentes no néctar, também é tóxica, levando à morte das abelhas.

Além disso, as espatódeas estavam apodrecendo de cima para baixo, com galhos caindo perigosamente. Neste sentido era preciso regulamentar corte e poda de árvores. Com apoio do ambientalista Alfredo Padovani, que trabalhava na secretaria de Meio Ambiente e ainda me dava suporte na Assessoria de Imprensa na gestão do Prefeito Dr. Taquinho Linhares (2005-2008).

Um parecer técnico da sua filha, Dra. Iracema da Silva Padovani, advogada com especialização (pós-graduação) em Direito Ambiental pela Universidade Gama Filho/RJ, MBA em Educação Ambiental: Gestão e Projetos na UNA/BH, construímos a primeira Deliberação Normativa (DN) do Codema, em 2008.

A DN 2008 colocava ordem em Ponte Nova para que a natureza fosse respeitada independente de quem estivesse à frente do Executivo. As árvores só seriam podadas ou cortadas (com parecer técnico consistente), entre 1º de abril e 31 de agosto (senescência). Assim, as espatódeas da Rodoviária Velha foram suprimidas a partir de 2009, de forma paulatina, sem pressa, para serem substituídas por outras.

Lembro-me bem que 18 foram cortadas. Uma delas permaneceu por mais tempo de pé. O Dilsinho, dono restaurante da Rodoviária Velha, que servia o famoso Prato Zoiudo: arroz com feijão, bife a cavalo, batata frita e salada, nas noites e madrugadas, me perguntou porque ela se mantinha de pé. Expliquei que havia uma família de canário-chapinha chocando no oco da árvore. Esperamos que os filhotes saíssem voando. E ato contínuo a árvore tombou.

Chegou a hora tão sonhada. A data do plantio foi cuidadosamente planejada com a secretária municipal de Meio Ambiente, Alessandra Regina Gomes: 29 de outubro de 2013, em homenagem ao aniversário de Ponte Nova (30/10). O plantio teve assistência direta da engenheira ambiental Ana Luiza Bomfim, com suporte do engenheiro ambiental Lucas Mattos, Diretor do Parque Natural Municipal Tancredo (Passa-Cinco): ele faria mestrado em Patrimônio Cultural, Paisagens e Cidadania, na Universidade Federal de Viçosa, Viçosa.

No dia do plantio, uma festa de ecologia e cidadania: meninas e meninas da Guarda Mirim Estrela Radiante, o Prefeito Guto Malta (PT), Sebastião 50, Marcelo Viana, Anderson do DMAES e outros servidores da autarquia, a Secretária Alessandra e voluntários ajudaram a plantar os oitizeiros, que foram cedidos pelo viveiro Instituto Estadual de Florestas (IEF), em Leopoldina, por meio de tratativas entre o engenheiro florestal Reinaldo Vitarelli e Ricardo Motta.

Em 2015, o restante do passeio foi removido e implantaram os pavers. Solicitei das arquitetas Tininha Santos e Carla Romanholi, e da engenheira civil Daniele Silva, que deixassem uma área de infiltração no entorno das mudas plantadas. A partir do quarto ano, eu comecei a podar os oitizeiros, aguava as mudas com ajuda dos comerciantes Reinaldo e Ana Flávia/Flavinha (Restaurante Rodoviária Velha) e Maurício Fuscaldi (Casa do Fazendeiro).

Elas cresceram quase homogêneas. Bem cuidadas, observando a estética e sua formação. Era preciso obedecer a estrutura dos galhos e folhas, sem se intrometer na essência da espécie. Eu podei todas os 29 oitis (existem outros quatro no mesmo trecho) plantados em mutirão de valorização do meio ambiente (sob minha coordenação), até 2022.

Deixar a natureza seguir seu curso traz harmonia, mas hoje nossas ações mudam o ritmo natural. Refletir sobre esse equilíbrio é essencial para a preservação. E foi exatamente isso que a poda desnecessária e agressiva transformou os oitis da Rodoviária Velha em árvores fantasmas. A aberração é muito grande, pois não era preciso fazer aquilo. A beleza das árvores foi alterada brutalmente.

A natureza opera em ciclos precisos (estações, marés, regeneração). Ela nos ensina que tudo tem seu momento de plantar, esperar e colher. Muitas vezes, o que chamamos de curso natural é impactado por ações humanas. Proteger o equilíbrio evita impactos ambientais negativos.

A natureza possui uma capacidade incrível de se recuperar, mas nós somos os únicos seres racionais com a responsabilidade de garantir que esse processo não seja interrompido. Espero que a resiliência ecológica devolva a beleza dos oitis, em breve tempo.

É preciso deixar bem claro que as árvores existentes no perímetro urbano não são propriedade da prefeitura. Eles pertencem aos habitantes de Ponte Nova. Não pode o poder público fazer ingerências sem respeitar a ecologia: isto é falta de sensibilidade e desrespeito às árvores.

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