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PROIBIR A PESCA NÃO RESOLVE: PROIBIR A COMERCIALIZAÇÃO, SIM!

            Sou frequentador de botecos. Em quase todos os bairros de Ponte Nova existe um preferido em que costumo tomar minhas cervejas. Fiquei conhecido por não comer peixe do rio Piranga no período da Piracema. Levo esta determinação há mais de 10 anos. Consegui com meu gesto uns poucos seguidores, que entenderam a importância de diminuir o volume de peixes de espécies nativas servindo de tira-gosto.

            Quando aconteceu o desastre que implodiu o ecossistema dos rios Gualaxo do Norte, Doce e Carmo, com refluxo de quase 02 (dois) Km do rio Piranga, na localidade Barra do Piranga onde se encontram os rios Carmo e Doce, o Codema tomou posição para criar uma DN/Deliberação Normativa que proibia a pesca no rio Piranga e seus afluentes: Mata-Cães, Vau-Açu e Oratórios. A ideia é manter um banco genético dos peixes nativos que ajudaria a salvar a piscosidade do Doce e do Carmo.

            A proposta veio depois de ouvir o Ph. D. em Peixes, Jorge Dergam dos Santos, professor da UFV, que disse na ocasião: “Não existe mais ictiofauna no trecho devastado pela lama, que arrastou galhos de árvores e animais mortos. Posso afirmar que a morte de peixes nos rios do Carmo, Gualaxo do Norte e Rio Doce foi quase 100%”.

            Entre as propostas aprovadas em reuniões do órgão ambiental constavam: 01) proibição da pesca nativa por 05 (cinco) anos; 02) proibição da comercialização em bares, restaurantes e supermercados, de pescado nativo das bacias hidrográficas do rio Piranga e Doce, nestas cidades da microbacia; 03) nas cidades onde existir pescador profissional, eles seriam contratados pela SAMARCO e passariam a integrar equipes projetos que trabalhem na recuperação de nascentes.

            A proposta de proibir a comercialização encontrou forte resistência em Ponte Nova e região. Entrou o lobby de proprietários de restaurantes, bares, hotéis e similares, e as Câmaras de Vereadores da região silenciaram-se. Embora, fosse bem explicado que  só seriam proibidos os peixes de piracema e em risco de extinção: piau-vermelho, corvina, piaba-branca, surubim, lambaris de todas as espécies, entre outros. Principalmente, o surubim-do-doce que está em vias de extinção.

            A proibição da pesca na parte mineira do Rio Doce e seus afluentes e os formadores rios Piranga e Carmo continua, mesmo com o fim do período da piracema. Mas, esta proibição é inócua visto que a pesca predatória continua em níveis bem superiores, no rio Piranga, pois lá pra baixo  a quantidade de peixes diminuiu  para além de 90%.

            Enquanto isso, em Ponte Nova, as geladeiras e freezers dos bares, botecos e restaurantes estão abarrotados, inclusive com peixes fora das medidas. A Polícia Militar Ambiental mostra-se eficiente na fiscalização, mas insuficiente numericamente para conter tanta transgressão ao meio ambiente.

 

(*) Ricardo Motta é jornalista, escritor e poeta. Presidente do Codema de Ponte Nova e Ambientalista desde 1977.

 

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