Membros da Organização Ambiental Puro Verde começaram na manhã de terça-feira, 10 de novembro, trabalhos em campo para quantificar fisicamente os danos causados pela lama com rejeitos de minério de ferro arrastada desde as barragens de Fundão e Santarém (Mariana) até a barragem de Candonga, que fica na divisa dos municípios de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado. As vistorias com relatórios fotográficos e filmagens se estenderão até o povoado de Santana do Deserto (Rio Doce) e Merengo e Viçoso (Santa Cruz do Escalvado).
Os trabalhos terão apoio do Professor de Biologia Animal da UFV, o PHD em Peixes, Jorge Dergan, que está atuando pelo MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), auxiliados pelos biólogos Bruno Edésio, que está terminando o curso de pós-doutorado em Peixes e Frederico Machado que faz mestrado também em peixes. Elas se encontraram com Ricardo Motta e Alfredo Padovani na ponte sobre o rio Doce, acima da barragem. Os pesquisadores estavam acompanhados do Doutor em Zoologia, professor da Universidade de Bonn (Alemanha), Markus Lambertz.
Para Jorge Dergan, o que aconteceu foi um tsunami de lama de rejeitos que causou um impacto de proporções incalculáveis. “Não existe mais ictiofauna no trecho devastado pela lama, que arrastou galhos de árvores e animais mortos. Posso afirmar que a morte de peixes nos rios do Carmo, Gualaxo do Norte e Rio Doce foi quase 100%”, disse Jorge Dergan. Para ele, a recuperação só se dará em décadas, não podendo haver nenhum movimento de limpeza, pois a remoção do que veio seria mais danoso para o meio ambiente.
Ricardo Motta, Secretário da ONG Puro Verde, esteve também na localidade de Barra do Piranga, hoje se encontram os rios Piranga e Carmo e constatou um fenômeno impressionante, pois a quantidade de lama fez um refluxo no local, retornando para dentro do rio Piranga quase dois quilômetros acima de onde se inicia o rio Doce. “O nível de destruição das matas ciliares é brutal. Em ambas as margens foram arrastadas árvores, animais (paca, tatu, cotia, capivaras, preás, entre outros). Cada margem deve ter perdido cerca de 10 metros de largura. Em alguns casos até 100 metros”, alertou Ricardo.
Para o ambientalista Alfredo Padovani, a visão é péssima. “Parece um cemitério. Um cenário triste e apavorante”, argumentou Alfredo Padovani. Para ele, a empresa responsável pelos danos ambientais causados terá que arcar com a recuperação, promovendo serviços ambientais adequados, que serão delineados em relatório a ser concluído em 30 dias.
Ambientalistas debatem se a retirada da lama das matas ciliares será necessária. Alguns admitem que dano poderá ser ainda maior. A ONG Puro Verde trabalha na vertente de recuperação de nascentes e da mata ciliar destruída nos rios Doce, Piranga (trecho de 1,5 Km), Gualaxo do Norte e Carmo. O caso pode se transformar em Ação Civil Pública a ser ajuizada contra a Samarco.
Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado entregam documento para diretores da Samarco
As prefeituras de Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado elaboraram documento conjunto e o entregaram à direção da Samarco. No texto, as administrações dos dois municípios atingidos sustentam: “Somos solidários àqueles que perderam entes queridos e sofreram graves danos materiais. Mas esta é a parte visível e imediata dos efeitos que causaram e causarão aos dois municípios ao longo do tempo, num espaço de décadas. É importante notar que a onda de lama e rejeitos que a tudo veio destruindo a partir de Mariana encontrou retenção ou represamento apenas ao chegar à beira do lado de Candonga, no remanso localizado antes da ponte de Rio Doce”.
As prefeituras daquelas cidades listaram ações que deverão ser imediatas, tais como: limpeza do lago de Candonga, bem como a destinação dos rejeitos e demais dejetos, incluindo a recuperação do Parque Linear das margens, estradas e mata ciliar; apoio de profissionais independentes da área ambiental para levantamento e acompanhamento do que efetivamente deve ser feitos; fornecimento de água aos proprietários ribeirinhos para uso próprio e dessedentação de animais.
Outra solicitação direcionada à Samarco foi uma avaliação e recuperação do encontro dos rios Piranga, Carmo e Doce, bem patrimonial tombado pelo município de Rio Doce e, portanto, origem de repasse de ICMS Cultural. O documento foi repassado à ONG Puro Verde pelo Assessor Especial da Prefeitura Municipal de Rio Doce, José Alexandre Fonseca, que foi enfático “Precisamos de auditoria ambiental independente para quantificar danos. Pode ser feita pela UFV e quem sabe, por técnicos da ONG Puro Verde, se for o caso”.


