Por João Mattos
Hoje rendo homenagem a um grande amigo e uma figura icônica do Vale do Rio Piranga: Ricardo Motta, o eterno “Cavaleiro Proscrito”.
Nascido em 7 de setembro — data que parece ter selado seu destino de independência —, em Coimbra (MG), Ricardo Motta de Almeida é um nome que se confunde com a história da comunicação e do ativismo regional. Filho de Georgina Motta de Almeida e Pedro Nunes de Almeida (em memória), Ricardo trilhou um caminho de dedicação à palavra e à terra. Após passagens por São Pedro dos Ferros, São José do Goiabal e Caratinga, adotou Ponte Nova como seu reduto definitivo no início da década de 1970.
O Pioneirismo na Comunicação
Se hoje a comunicação institucional é peça-chave na administração pública local, a semente foi plantada por ele. Em 1983, sob o governo de Sette de Barros, Ricardo criou e assumiu a primeira Assessoria de Imprensa do Poder Executivo de Ponte Nova, profissionalizando a relação entre o Estado e o cidadão.
Sua escola foi o “chão de fábrica” das redações e a vibração das ondas do rádio. Do início, como comentarista esportivo na Rádio Sociedade Ponte Nova à experiência cosmopolita no Rio de Janeiro — onde atuou na Rádio Federal de Niterói, no tradicional jornal O Fluminense e na Rádio Guanabara —, ele lapidou o estilo direto e sem filtros que o consagrou. Atuando desde 1978, dirigiu em Ponte Nova a Rádio Visão e a Vale do Piranga FM (atuais Montanhesa e Líder), consolidando-se como uma das vozes mais respeitadas e ouvidas da região.
A Pena, a Academia e o Legado Ambiental
Membro fundador da Academia de Letras Ciências e Artes de Ponte Nova (ALEPON), ocupando a Cadeira nº 01, Ricardo é um mago das letras. Sua bibliografia é, acima de tudo, contemporânea, eclética e corajosa: do realismo de “O Maldito dos Malditos” (2004) à biografia política “Sette de Barros – O Início de uma Revolução” (1993), passando pelo cordel “A luta do glorioso Sette de Barros contra o Capeta do Atraso” (1986). Para 2026, o público aguarda ansioso novos lançamentos que prometem explorar temas tão distintos quanto o meio ambiente e o erotismo feminino.
Sua relevância foi evidenciada por honrarias oficiais, como o Mérito Ecológico (2008), Cidadão Honorário de Ponte Nova (2014) e o Mérito Legislativo Municipal (2023). Mas Ricardo é, acima de tudo, um homem de ação. Muito antes de a “sustentabilidade” tornar-se um termo de moda, ele já estava na linha de frente. Em 1977, ajudou a fundar a APAN (Associação Pontenovense dos Amigos da Natureza), a primeira ONG ambientalista da região. Foi decisivo para a criação do Parque Natural Municipal Tancredo Neves, presidiu o Codema por duas décadas e hoje mantém seu ativismo prático na Coorpnova e na Horta Comunitária da AmaCopa, no Bairro Copacabana.
O “Cavaleiro Proscrito” e a Essência do Jornalismo
Uma passagem de 2004 resume bem sua personalidade. Encontrei Ricardo Motta na Praça Getúlio Vargas, em meio a um embate acalorado. Com o livro “O Maldito dos Malditos” em mãos, ele rebatia críticas de setores conservadores: “Gente com mentalidade de anteontem não aprova um livro de vanguarda!”, exclamava sob uma mistura de aplausos e vaias. Ao me aproximar e perguntar o que houve, ele desabafou com a franqueza habitual: “João, estou de saco cheio da hipocrisia… estou me sentindo um proscrito!”.
Dessa autodefinição nasceu o apelido que lhe conferi e, pelo qual lhe dediquei um acróstico onde enalteço sua luta pelo meio ambiente:
Cavaleiro Proscrito
Refletir sobre a liberdade, poesia mais pura
Instante infinito sob a sombra de um ingá
Chuva fina que molha o mógno e alimenta o rio
A vida ressurge brotos na terra, esperança no ar
Reclamam o verde, os animais, desmandos dos homens
Desalinho ao universo, à natureza, à vida.
O meio ambiente agoniza, pede socorro
Mas em sonho, como herói de Cervantes
O Cavaleiro Proscrito, de coração valente
Traz consigo a vontade, a teimosia em preservar
Trotando contra os ventos, moinhos insanos
A sua razão impera quando a vontade silencia…
Das mãos dos gurus engravatados não brotam sementes
Evidencia a culpa do homem e sua ganância…
Ainda existem estandartes, vozes solitárias
Levando os ideais do Cavaleiro Errante
Munidos de vontades e quereres
E tudo fazem aos que jazem na ignorância,
Inspirados na perfeição e lucidez
Da terra nasce a vida, brotam os homens
A natureza então o rebatiza, “Cavaleiro Bendito”!
Hoje, Ricardo permanece no epicentro da notícia como editor do jornal Líder Notícias e redator das rádios Líder FM e Montanhesa. É no programa Acorda Vale, entre 7h30min e 7h40min, que sua essência se manifesta plenamente. Ao lado de Batista da Silva, analisa o cenário local e global com a autoridade de quem viveu a história e a coragem de quem não se curva.
Toda sua irreverência não mudou com o tempo. Ontem mesmo (18/03/2026), recebi uma ligação dele, direto de um salão de estética, com o humor de sempre: “João, estou na cabeleireira aqui, fazendo um penteado revolucionário! Vou lhe mandar a foto, veja se gosta… e se não gostar, azar o seu, tô nem aí!”.
Esse é o Ricardo Motta: autêntico, desprendido das vaidades convencionais e fiel apenas à sua própria consciência. Para mim, ele representa o jornalismo em sua forma mais pura: independente, crítico, provocador e, acima de tudo, sem frescuras. Uma homenagem justa a quem nunca teve medo de ser voz, mesmo quando o silêncio parecia mais seguro.
Foto: Ricardo Motta e seu penteado revolucionário!!


