Carregando data e hora...

#SalaSocial: Caligrafia de sem-teto vira fonte de renda

Uma ONG de Barcelona resolveu transformar a caligrafia usada em cartazes feitos por moradores de rua da cidade em fontes tipográficas.

Com a venda das fontes para marcas corporativas e usuários da internet, a ONG Arrels Fundació pretende apoiar projetos para os sem-teto.

A ideia é, a um só tempo, dar novo sentido às inscrições características feitas por moradores de rua, resgatar pessoas em situação de risco e sensibilizar a sociedade sobre um problema que afeta cada vez mais gente na Espanha.

Caligrafia de moradores de rua é digitalizada e posta à venda

Com a colaboração da agência de publicidade The Cyranos McCann, designers digitalizaram a caligrafia dos sem-teto. As fontes são vendidas no site Homelessfonts.org.

Olga García, responsável pelo projeto, explica que a campanha foi lançada no dia 8 de junho e já teve bons resultados nas redes sociais e nas vendas para internautas de vários países, inclusive do Brasil.

Francisco Cáceres viveu mais de 50 anos no Brasil, mas virou sem-teto na Espanha

Em apenas três semanas, o vídeo no Youtube que apresenta a iniciativa teve 100 mil visualizações.

As primeiras fontes já começam a ser usadas em rótulos de alguns produtos, como vinho e azeite.

Cada tipografia vale 19 euros (R$ 57) para uso particular ou 290 euros (R$ 870) para uso corporativo.

A Fundação Arrels, que há 27 anos ajuda os sem-teto de Barcelona, estima que existam 3 mil pessoas sem teto na cidade.

Sensibilização

Olga García reforça que, mais do que um incentivo financeiro ao trabalho da fundação, o objetivo da campanha é dar visibilidade ao problema. Para ela, a grande mensagem que a iniciativa transmite é que “essas pessoas não são um pedaço de papelão que caminham pela rua”.

Cartazes feitos por moradores sem-teto (Homelessfonts)

“Não se trata apenas de comprar a fonte, mas de conhecer a história por trás daquela letra”, diz responsável por projeto

“Não se trata apenas de comprar a fonte, mas de conhecer a história por trás daquela letra”, explica. “Queremos despertar um novo olhar para as pessoas sem lar. A letra que antes servia para pedir ajuda agora serve para ajudar a outras pessoas”, afirma.

Ela conta que uma equipe de voluntários está desenvolvendo um aplicativo para que as fontes possam futuramente ser usadas no Facebook e no Twitter.

Olga afirma que a força das redes sociais na divulgação da iniciativa tem sido fundamental. “As redes sociais são a chave do êxito desse projeto. Estamos muito satisfeitos com a difusão internacional que (o projeto) está tendo.”

Experiência

O desenhista aposentado Miquel Fuster Jaca, 70 anos, morou durante 15 anos nas ruas de Barcelona e participa do projeto.

Sua letra é uma das dez fontes já disponibilizadas no site. “Quero colaborar para dar visibilidade a esse problema e acabar com o estigma dos moradores de rua”, conta ‘a BBC Brasil.

Loraine, nascida em Londres, conta que foi morar nas ruas em Barcelona em 2009, após ter o passaporte roubado

Ele lembra que viu a vida desmoronar junto com o apartamento em que morava, que se incendiou.

Nas primeiras noites após perder a casa, dormiu em uma praça no bairro onde morava. Era um consolo ver caras conhecidas. Com o tempo, afirma que sentiu que sua presença já não era mais bem-vinda e passou a perambular pela cidade.

Agora, as fontes criadas por ela ilustram os rótulos de garrafas de vinho, graças ao projeto

Miquel conta que, no tempo em que viveu na rua, tornou-se alcoólatra e foi vítima de agressões. Sobrevivia dos desenhos que fazia e vendia para turistas e transeuntes.

“Na rua, o primeiro sentimento é de incredulidade. Depois vem a raiva contra si e contra todos, pois vivemos em um mundo hostil. Logo vem o sentimento de luto pela vida que já não podemos recuperar”, descreve Miquel.

Hoje ele vive em um apartamento protegido pela fundação e colabora com projetos da entidade. Ministra palestras sobre sua experiência como sem-teto, que pode servir de exemplo para muitas pessoas.

Como quando fazia cartazes, mais uma vez Miquel pegou a caneta para escrever. Dessa vez, o que está pedindo é que os moradores de rua deixem de ser invisíveis.

 

BBC

Compartilhe nas redes sociais