A literatura existente sobre a influência da estrutura de personalidade na formação e surgimento do câncer é ampla. O fator psicológico pode influenciar no surgimento do câncer, o autor LeShan, em seu livro “O câncer como ponto de mutação”, relata sua experiência com pacientes oncológicos e a importância da estruturação psíquica da pessoa durante todo o processo da doença: instalação, evolução, cura ou morte.
Pessoas que tiveram uma infância e juventude marcadas pelo isolamento, insegurança, negligência, e que na fase adulta tem como projeto de vida algo externo a si, quer dizer dependente de outro, como relacionamento e ou trabalho, assumem uma forma inautêntica de existir. Essas pessoas lidam com dificuldade com suas questões emocionais, usando mecanismos de defesa psicológica ineficazes. Assim, estão mais propensos a desenvolver doenças, pois ao estarem mal ajustados emocionalmente, acabam refletindo isto no corpo ficando mais fragilizados, propensos ao adoecimento físico.
A vida humana é paradoxal, temos o alegre e o triste, o saudável e o doente, a vida e a morte. O nosso existir é cheio de incertezas, pois decorre desses paradoxos; riscos que nos infligem insegurança. Para enfrentar essa vulnerabilidade é preciso ter coragem para ser o que realmente se quer, para viver a própria existência apesar dos riscos inseridos nela.
O ser sadio existencialmente é aquele que consegue se abrir às possibilidades, bem como aceitar e enfrentar as ambivalências da vida, compreendendo-as como parte dela. Estabelecendo articulações eficientes entre as possibilidades e os limites do existir. O ser doente existencialmente não dispõe livremente e nem normalmente de todas as possibilidades de relações que poderia manter com o mundo.
No contexto do adoecimento devemos diferenciar o ser doente do estar doente. O ser doente define aquela pessoa que se comporta diante da vida de uma forma doente, sua vida é construída a partir da doença e está passa a ser referência para todos os aspectos da vida. Já o estar doente, normalmente diz daquelas pessoas que possuem uma boa estrutura vital, em que a vida possui um significado além do estar doente. A doença representa um período delimitado da vida da pessoa e não se constituirá como ponto de referência vital.
Estudos estabeleceram uma relação entre os tipos de personalidade e as doenças mais comuns, e os classificaram em três tipos: A, B e C. Sendo o tipo A mais comum em pacientes cardiopatas, falam de uma estrutura de ser-no-mundo mais expansiva, hostil, competitiva, agressiva, são pessoas que podem possuir uma maneira preocupada de existir. Já no tipo B estão as pessoas mais relaxadas, não competitivas, sem perda do autocontrole ou comportamento hostil, possuem uma maneira sintonizada de existir. No tipo C encontram-se as pessoas que, a princípio se enquadrariam no tipo B, mas em análise detalhada, percebeu-se que sua tranquilidade e adaptação típicas do tipo B, eram apenas aparentes; na realidade escondiam um universo de insegurança, dificuldade de auto afirmação, raiva não expressa, ansiedade reprimida e sentimento de desesperança.
Muitas vezes essa diminuição da esperança, repressão dos sentimentos e a anulação de seus desejos de vida para atender ao desejo do outro, irá acarretar o surgimento das doenças psicossomáticas, como o câncer. A pessoa que não sabe reconhecer e lidar com suas emoções de maneira saudável, poderá ter uma quebra de qualidade na sua relação com a vida. A pessoa que possui uma boa organização psíquica, proveniente de um bom amadurecimento de seu aparelho mental, tem mais condições de lidar com seus traumas, superando seus efeitos desorganizadores, antes que eles cheguem ao corpo somático. Pois, não é o trauma em si que irá desorganizar a pessoa, mas sim como esta lida com ele.
A psicossomática estuda a influência do emocional no surgimento do câncer e também no processo de cura, ou de surgimento de metástases e recidivas. O que se percebe é que diante do quadro de câncer já instalado, aqueles pacientes que possuem boa evolução e alta sobrevida são normalmente os que se mantêm esperançosos e confiantes diante de sua doença. O uso do método de visualização criativa durante o tratamento pode auxiliar o sistema imunológico da pessoa a trabalhar em seu processo de cura. Além de deixar a pessoa mais participativa em seu tratamento. O “doente” não é mais o “paciente” nas mãos da equipe de saúde, mas sim uma pessoa totalmente participativa em seu tratamento, desejosa da recuperação da saúde e que não fica esperando essa recuperação lhe ser entregue nas mãos, mas que contribui ativamente com essa recuperação.
Certo é que todo ser humano tem a chance de mudar a qualquer momento, mudar sua vida, sua história, sua maneira de existir. Não é porque uma pessoa possui determinadas características de personalidade que seu futuro está determinado. O ser humano se constrói e reconstrói a todo instante. E uma de suas principais características é a capacidade de emergir e superar todas as condições adversas que se apresentam em seu caminho.
Shênia Chaves


