A famosa e tão cobiçada agenda, que todo mundo quer e ninguém a rigor usa, é sempre um livro bonitinho, bem encadernado, com capa colorida, enfeites dourados, plastificada, perso-nalizada com a gravação de um belo logotipo, geralmente de algum fornecedor gentil, ávido por cobrir algum cliente de gentilezas, fazendo-o ou tentando fazê-lo lembrar-se que ele (o fornecedor) existe, durante todos os dias do ano. Já vi muitos calendários pendurados na parede de distribuidores ou atacadistas onde eles escondem o nome do fornecedor exatamente pro pequeno cliente não ficar estimulado ou tentado a fazer um contato e comprar diretamente.
A rigor, francamente, é um livrinho danadinho, que vive atazanando a vida da gente. Quando você a usa rigorosamente, você se torna uma pessoa metódica e se torna escravo de um simples bloco de papel, que fica ali ostensivamente sobre a sua mesa. Corre o risco de tornar-se uma pessoa extremamente antipática, quando se distrai e diz para um cliente Amigo, que vai consultá-la.
Torna-se assim, um presente de Grego.
Uma vez, me lembro bem, e jamais me esquecerei, telefonei a um amigo meu, dando-lhe parabéns pelo seu aniversário e mencionei que constava na minha agenda. Ele imediatamente, ironizou-me, dizendo-me prontamente, que nunca precisou dela, para se lembrar do meu.
Tem gente, que usa, esse tal livrinho a vida toda e sempre pergunta com cara de pau, ou de ignorante mesmo, se o mês de julho tem 30 ou 31 dias. A gente aprende essas coisas no curso primário e nunca mais esquece. Atualmente com o advento do computador e dos telefones modernos, tudo isso ficou pra trás e de fato o que nos vem a memória sobre agendas (que muitos ainda usam, como uma espécie de agenda pagamentos) é mesmo aquele livro ensebado, cruelmente eliminado pela tecnologia moderna.
A Agenda manuscrita portanto exceto em alguns casos específicos, é o livrinho do óbvio ululante, onde você a rigor, escrevia coisas que estava cansado de saber, que iria mesmo ter que fazer. Se agenda valesse alguma coisa, médico não faria você esperar 2 horas em consultórios de luxo, com secretárias etc. Nunca fui escravo da pontualidade ou discípulo do Ingles escravo do relógio, mas acho que chá de cadeira, não faz bem a ninguém.
Em determinada fase da minha vida profissional, impuseram-me de forma absoluta, o uso do tal livrinho como medida disciplinadora, já ostentando uma posição hierárquica relevante dentro de uma grande empresa e eu, passivamente, como todo funcionário exemplar, embora já naquela altura bem graduado, fiz um esforço para não me rebelar, cumprindo rigorosamente a ordem. (Foi por volta de 1981 quando pressenti que estavam arranjando um motivo para me desalojar) Mas fiquei, confesso, durante muito tempo, em clima de perplexidade, de revolta, olhando para aquela coisa ignóbil, sobre a minha mesa e ficava apavorado, só de pensar, que eu teria que carregar aquele livro esdrúxulo para as reuniões ou mesmo para despachos informais, mantendo a calma e a aparente fisionomia de submisso conformado. Na verdade, eu não podia escrever metade do que eu ouvia ou do que queria. Pior ainda, não deveria escrever muitas coisas que eu gostaria de dizer e não dizia.
Mais ou menos aquela historia da caixa preta ou mais exatamente o espelho da imprensa Brasileira, que vive ás custas dos comerciais do Governo – Caixa, Bco Brasil, Petrobrás Ministério da Saúde, da Educação e até (pasmem) o TRE que convoca mesários pela TV.
Mas enfim, depois de algum tempo de uso deste enfadonho documentário, houve dúvidas se na cônversa de tal dia, teria sido combinado realmente aquilo que eu havia executado. Eu verifiquei, disse que sim, e mostrei que estava escrito na agenda. O diretor duvidou, mostrei de novo, já com um semblante meio revoltado, do tipo tolerância zero e estava estabelecido um clima altamente constrangedor.
Aí, veio o comentário:
Amigo, “papel aceita tudo”. Eu não falei isso, ou devo ter tomado algum comprimido para dormir e não sabia o que estava dizendo.
Ponto final. Revogue-se.
Apesar de tudo, alguns meses depois, após mais alguns incidentes parecidos, eu continuaria sempre portando aquele livrinho ensebado e ridículo debaixo do braço, firme e obediente, mas ai eu já estava, como se diz, mais na base da ironia.
Um belo dia, após um bate papo exacerbado, do tipo “há controvérsias”, sai, como sempre aborrecido com aquela maldita agenda, e fui tomar umas e outras. ( Eu não usava comprimidos para dormir) e mesmo assim, me esqueci de comparecer no dia seguinte, com a dita cuja debaixo do braço.
Fui cumprimentado, com um sorriso amarelo, mas profundamente aliviado e não fui advertido. Percebi com minha razoável inteligência, que as circunstancias haviam decretado o fim da Agenda. Dali pra frente, senti que valia tudo, eu poderia até mesmo dar uma de Chico Xavier psicografando textos e declarações do “Fritzz”. rsss
Mais alguns dias, outro incidente:
Falei, não falei, Etc. e Veio a clássica pergunta:
Só por perguntar – Está anotado na agenda ?
– Nao Sr. Não anotei.
– Ótimo Amigo, O Sr. deve aprender a falar mais e escrever menos.
– Fiz melhor, caro Sr. diretor, com todo respeito, eu a joguei no lixo.
– (Gargalhadas)
E assim, nunca mais se falou na tal Agenda.
E eu, que a partir dai, jamais voltaria a escrever nesse maldito bloco de anotações com capa metida a besta, aprendi pelo menos a fazer crônicas.


